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19 de novembro de 2010

Não entre! Cão bravo!

É verdade que eu sou um cara obsessivo. Às vezes com uma coisa, às vezes com outra, não importa, tenho sempre algo que simplesmente não me sai da cabeça. Tentei fazer, nessas pouco mais de duas semanas desde o fim das eleições, uma espécie de retiro: política, só a que envolvia diretamente ao meu trabalho, injustificadamente atrasado. Mas devo confessar que não consegui. Via, em cada leitura que fazia para a tese, passagens que me remetiam a esse momento histórico que tanto o Brasil quanto os EUA estão vivendo: um avanço pesado de um pensamento, bem pensada a expressão, radicalmente conservador.

1 de novembro de 2010

Lula: culpado!

Ruy Fabiano é que está certo. Vejam só no que Lula transformou a sociedade brasileira, que antes de 2003 era um mar de compreensão, tolerância e respeito:


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@jrbarbassaRubão!

Meu voto é seu. RT: @LuizaFearless Ainda vou me candidatar a presidente. E a primeira coisa que farei é jogar uma bomba no Nordeste. ADEUS!

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@romariuk_Romário Dias

31 de outubro de 2010

Olha só os outros, mas que inferno!

Chega ao fim, daqui a pouco, a pior campanha política desde 1989. E não fui eu quem disse, que não me lembro sequer da 1993. Foi Luiz Nassif em um dos seus tuítes. Goste ou não dele, o cara está cobrindo política há séculos.

Nesse momento, a Veja posa, mais uma vez, de vestal da democracia brasileira.

“Mas por que um assunto distante das discussões relativas ao futuro do país marcou o segundo turno de forma tão presente, enquanto programas de governo simplesmente desapareceram? Para cientistas políticos ouvidos pelo site de VEJA, o “fenômeno” retrata o vazio da campanha deste ano, especialmente no segundo turno.

20 de setembro de 2010

Caetano e a extirpação do DEM

Muitos, entre eles Caetano Veloso, criticaram declaração recente de Lula de que o DEM deveria ser extirpado (pra quem não leu, segue abaixo o artigo em que Caetano reafirma declaração feita a uma rádio de Santo Amaro).
Pra mim Lula falou isso do DEM porque queria provocar os adversários a atacá-lo, o que nesse eleição é garantia certa de esparro, até em SC. A mesma coisa ele fez com ACM na eleição passada, chamando-o de ratazana - e aliás o expediente funcionou maravilhas, e Wagner ganhou quando ninguém acreditava nisso. 
Eu não vejo nada na história de Lula que indique a vontade de extirpar outras forças políticas. Nem antes nem durante a presidência. Isso eu já vi na história do DEM e de seus antepassados (por exemplo, na Bahia).
Tirando que tenho minhas dúvidas se a vontade de extirpar o adversário, desde que isso seja feito nas urnas, não faz parte do DNA de qualquer partido político real numa democracia.
E tenho dúvidas também sobre se ainda é preciso extirpar o DEM, ou se isso já não foi feito.
Tá, Lula é presidente, e aí mais que nunca falar é fazer. Uma declaração isolada, mesmo nesse caso, é mais ilustrativa que a trajetória política como um todo? Vale sempre lembrar de que lado dos cassetetes cada uma estava na época da ditadura, pra ficar num tipo de repressão policial até leve pros padrões da época.
E campanha é campanha. Ainda mais contra os Bornhausen, que falaram em varrer a raça dos petistas há algum tempo, e agora responderam assim:
"Para pronunciar o nome dos Bornhausen dentro de Santa Catarina, Lula tem que estar são e lavar a boca antes".
"— Aconselho o presidente a não faltar com a verdade, não inaugurar obras inacabadas, respeitar as famílias catarinenses e não ingerir bebidas alcoólicas antes dos comícios."
Quanto ao princípio "tratar com educação aquele que te trata com educação", Celso de Barros saiu-se com a seguinte pérola, quanto à sua relação com Reinaldo Azevedo:
O cara ofende quem quer, patrulha os outros jornalistas (como no caso recente da Lucia Hippolito), chama a Marilena Chauí de tati Quebra-Barraco,  e vive, fundamentalmente, disso: alguém é capaz de citar uma idéia que Reinaldo Azevedo já tenha tido na vida, fora “Mendonça, tô com o projeto de uma revista aqui que vai dar o maior lucro!”?
Depois de anos fazendo isso, malandro, o que você queria? Que eu passasse talquinho no seu bumbum? Te fizesse cafuné? Te desse uma bitoca? Mandasse fazer um bolinho de marzipã com nossas iniciais entrelaçadas? Esculpisse um smurf violeta com sua cara abraçando um coração borrifado de alfazema? Que eu te desse um danoninho sabor amora, dengo e pônei? Informamos que a saída de emergência para marmanjo mal-educado metido a sensível é logo depois da loja de lembranças.”
Algo análogo se aplica ao caso. Lula até não desceu o nível.
Por isso não concordo com o que Caetano disse. Mas, claro, sei que ele não se confunde com o uso que com certeza vem sendo feito de declarações como essa. Como foi e é vítima de policiamento ideológico, Caetano tem  o direito de ficar puto. Só que não está claro pra mim se ele leva em conta o risco de responder com a mesma moeda, e confundir qualquer apoio a Dilma e Lula com voluntarismo cego de militante. O texto é ambíguo nesse sentido, talvez de forma calculada.
Agora, que a quase unanimidade e o obaoba atual no Brasil têm lá seus riscos claros, nisso Caetano tem razão mesmo. Os recentes escândalos envolvem claramente exploração eleitoral por parte da grande imprensa, de maneira inteiramente desequilibrada, como mostra a falta de repercusão de reportagem da Carta Capital sobre a quebra de sigilo feita por empresa das filhas de Serra e Daniel Dantas na era FHC. Na época, como era costume, absolutamente nada se fez no governo ou no Ministério Público a esse respeito. Tem vários aspectos questionáveis nas denúncias, e o melhor comentário que vi a esse respeito foi de Nassif.
Não obstante isso, é pra lá de perigoso deixar de se preocupar com os indícios de corrupção ou tentativa de corrupção que ocorreram na Casa Civil. Digamos que, na melhor das hipóteses, o filho da agora ex-ministra Erenice Guerra tivesse uma consultoria legal, que cobrasse taxa de mercado nos seus serviços, e que a parente ilustre nada fizesse pra “agilizar” os negócios da empresa interessada. Ainda assim, seria revoltante que alguém ocupando cargo dessa importância não visse problemas com esse tipo de movimentação. Tá lá em cima, tem que aguentar o tranco, ainda mais com uma imprensa dessas. Se isso ocorreu, ela não deveria ter se tornado ministra, porque não estava à altura do cargo.
De todo jeito, engarrafamento e música alta na praia à parte (por sinal, estranhei o ataque ao axé e a seleção lexical "vulgar", tão preconceituosa - ele enjoou de "cafona"?), o texto de Caetano até me deixou com saudade de Salvador, de cujo provincianismo já nem sei se me envergonho.
“Caetano Veloso
Cantor e compositor
“Retenção em direção à Raul Seixas e ACM”. É uma frase e tanto para marcar a entrada na cidade de Salvador. A voz da moça no rádio do carro não deixa transparecer nem uma gota de ironia ou ansiedade.
Apenas adverte o motorista já preso no engarrafamento que ele terá maiores dificuldades ainda ao chegar em conhecido viaduto, que desemboca em conhecidíssima avenida.
As margens da estrada estão cheias de pessoas que agitam bandeiras com nomes de candidatos, alguns dos quais aparecem também em cartazes apoiados na grama.
Aparentemente, todos estão abraçados com Lula. Muitíssimos com Dilma e Lula. O governador Jaques Wagner aparece num grande outdoor entre seu vice e Dilma. Inacreditavelmente, ele é anunciado como Wagner Dilma, em grandes letras brancas.
Letras miúdas explicam que ele é candidato apenas com a palavra “governador”.
Letras igualmente pequenas dizem que seu vice é Otto Não-Sei-Quê. Nada é explicado sobre Dilma, de modo que o nome dela realmente aparece como sendo o sobrenome de Wagner: mesmo tipo, mesma cor, mesmo tamanho.
A Bahia é especialmente lulista. Sempre foi. Eu me orgulhava disso. Agora, já não consigo sentir que ela o seja pelas melhores razões.
Sou otimista e creio que as melhores razões ainda predominam na composição do fenômeno Lula. Mas é impossível não ver a infantilidade dos eleitores na aceitação do que quer que Lula diga ou faça. Entendo o papel que a economia desempenha no êxito do seu projeto de fazer o sucessor. Mais ainda: o Bolsa Família é um grande conseguimento.
Mesmo assim, senti necessidade de gritar para os microfones da Rádio Santo Amaro FM que o presidente da República não pode declarar que um partido político deve ser extirpado. A frase de Lula sobre o DEM é inaceitável. Nem adianta lembrar o papo de livrar-nos da “raça petista”, lançado por Bornhausen: este também era incivil (e com um risco de conotação terrível pela escolha da palavra “raça”), mas ele não era presidente da República.
Reafirmo meu voto em Cesar Maia.
A mesma voz no rádio informa que Erenice Guerra foi destituída do cargo que herdou de Dilma. Também pudera: com aquela nota em tom de ofensiva que ela lançou, só podia mesmo dançar.
Era uma nota que dava vontade de mover céus e Terra para que Serra passasse ao segundo turno com Marina.
Que que é isso? “Aético e já derrotado?” Incrível. E olha que eu gosto menos da “Veja” do que da Erenice, se é que você me entende.
Barracas
Salvador não tinha engarrafamentos assim.
Não faz muito tempo que isso começou.
Uns poucos anos. A cidade inchou, e hoje muito mais gente pode comprar carro. Além disso, há uma Barra da Tijuca no litoral norte: condomínios já se encadeiam desde Santo Amaro de Ipitanga quase até Aracaju. Nosso carro entra na cidade “por dentro”, isto é, pela Paralela e outras estradas paralelas à orla marítima.
Portanto, não vi as praias sem barracas. Era meu sonho (e meu comício quase diário) que se retirassem as barracas fixas das areias da orla.
O prefeito que se reelegeu (como, meu Deus?) tinha erguido “barracas” de alvenaria, para substituir as barracas de telhado de palha. Estas já eram problemáticas pois todas serviam comida, tinham banheiro para os donos e empregados (que muitas vezes dormiam lá), etc. As de alvenaria prefiguravam uma favela crescendo sobre a praia em direção às ondas.
Tinha o problema do som alto com música pop comercial (axé, sucesso americano, pagode, axé e axé). Eu odiava.
Desisti de ir às praias de mar aberto (o Porto da Barra não tinha barracas fixas) e sentia vergonha de levar visitantes amigos. A gente vai à praia para ouvir as ondas baterem, não música vulgar em caixas rachadas. Não é que agora, de repente, esse mesmo prefeito teve um estalo de Vieira e, sem que se conhecesse um plano de solução para a questão, resolveu retirar todas as barracas de uma vez? Parece suspeito? Bem, ouço papo de liberar o gabarito dos prédios da orla. E não gosto de intervenções, por mais sensatas no pensamento, que não levem em conta o que já funciona.
De todo modo, eu acho que uma barraca que se chama, desde, pelo menos, 1972, Jane Fonda: Um Toque de Aconchego (isso escrito em talha de madeira pintada, podendo ser lido do ônibus) devia ser tombada: eu tinha um sonho de mostrar à própria Jane Fonda e tentar traduzir o “subtítulo” para ela.
Falar de Salvador aqui pode fazer Xexéo voltar a me sacanear com piadas sobre o regionalismo que invadiu, por meu intermédio, as páginas cosmopolitas do Segundo Caderno.
Mas a prova de que a Bahia é menos provinciana do que o Bairro Peixoto é que foi lá que Zé Dirceu disse as palavras definidoras do futuro governo Dilma.
O trânsito emperrado entre o viaduto Raul Seixas e a Avenida Antônio Carlos Magalhães me fala da tensão entre o impulso desprovincianizante e o populismo arraigado.
As primeiras palavras petistas sobre Lula ser maior do que o PT (e disso ter produzido uma vitória do PT sobre o próprio Lula, este passando a ter sido uma jogada para que o projeto político do partido domine o País) foram pronunciadas na Bahia. Onde sempre se descobriu o Brasil.
Aliás, por que ninguém respondeu à minha pergunta sobre a razão de aprendermos na escola que o Brasil foi descoberto? Domingo que vem eu conto como Jon Hendricks me levou, via Moreno, a redescobrir tudo. Ouvindo essa música, fiquei mais capaz de apreciar Raul, ACM, Erenice ou Dirceu. Venha o que vier, eu encaro.”

16 de agosto de 2010

Por que Lula escolheu Dilma?

É, o começo do segundo semestre chega mostrando que, como temia, vai ser difícil atualizar o blog. Pelo menos Rodrigo voltou. De todo jeito, caro 1,2 leitor semanal (contando eu), assine a “newsletter” ou nos siga no twitter, pra não perder seu tempo de vir aqui e não achar nada de novo – como dá pra ver que alguns fazem.

Bem, a Época saiu essa semana com a foto da ficha criminal de Dilma, prometendo revelar informações inconvenientes sobre seu passado terrorista. Não li e não gostei, até porque já deu pra ver mais ou menos do que se trata em mais um post memorável do NPTO. De toda forma, a crescente sensação da vitória do PT e o início de uma maior presença direta da candidata nos meios de comunicação vão plasmando melhor a imagem pública de Dilma.Arte com foto da capa da Época, que apoiadores de Dilma usam no Twitter 

Essa história da ex-terrorista é mais um ato de desespero da oposição, e pode até ter o efeito inverso do esperado. Uma das razões para isso é que contradiz a imagem de uma candidata pura criatura, criada ex nihilo por Lula para sucedê-lo.  Faz algum sentido dizer que uma mulher que decidiu pegar em armas contra a ditadura militar brasileira tem potencial de marionete? É a mesma inconsistência da ideia de uma pessoa que maltrata os inferiores em relação ao papel de pau mandado, como bem notou a própria Dilma na entrevista ao JN. Em parte, é a própria novidade da figura no cenário eleitoral nacional que talvez permita essas oscilações, fora a usual falta de preocupação com a coerência por parte de certos discursos.

A tentativa de mostrar uma falta de valor próprio de Dilma revela, aliás, o quanto o governo Lula fez estragos na oposição. Se consideram que o presidente é capaz de eleger um poste pra sua sucessão, então Lula está bem próximo mesmo do Deus transcendente da Bíblia, que não encontra limites pra seu poder, manipula o jogo, os personagens e as regras. Aquele para o qual a matéria não oferece resistência nenhuma. O todo poderoso mesmo. O cara. Nesse caso, não deveriam criticar a sua pretensa mania de grandeza, pois são os primeiros a inflá-la.

De fato, Lula revela mais uma vez muita capacidade nessa eleição, e não só pelo fenômeno da transferência de voto de um governo espantosamente bem avaliado. Mas não porque teria feito de quem bem quis sua candidata, mas por ter antecipado possibilidades que demonstram seu tino político afiadíssimo. A escolha de Dilma, na verdade, não foi nada arbitrária, e sim inteiramente circunstanciada.

Pra mim o cenário foi mais ou menos assim: com o mensalão, a imagem do PT foi fortemente desgastada; pra completar, como o antigo partido vestal não inventou a roda na hora de fazer besteira, e sim repetiu tramóias em que os demais eram especialistas históricos, isso deu num desgaste ainda maior da classe, tipo “político nenhum presta mesmo”; tendo dado a marca do social ao primeiro governo, era necessário mostrar ao eleitor que havia algo mais a fazer, e isso era tirar o Brasil da estagnação econômica.

Ora, Dilma responde a todo esse contexto. Não tem ligação histórica com o PT, pois era filiada ao PDT. O fato de nunca ter disputado eleição, num cenário em que os profissionais nesse meio são os mais queimados, torna-se até positivo. Quanto menos você for escolado nessa sujeira toda, melhor. O perfil de funcionária técnica só complementa esse aspecto. Pra exorcizar ainda melhor a figura expiatória de José Dirceu, só mesmo se não tivesse lutado contra a ditadura. Por fim, identificada com o desenvolvimentismo e com a cobrança por resultados, era a pessoa certa para comandar a Casa Civil no segundo governo, e o PAC. Além disso, e não menos importante, dá a ideia de um avanço: como diz Marina, primeiro um sociólogo, depois um operário, e agora uma mulher (a diferença pra Dilma nesse sentido Marina garante com a especificação “de origem humilde”).

Lula sabe melhor que ninguém: política jamais pode ser a arte de ajustar a realidade a seus desejos. A escolha de Dilma evidentemente levou em conta sua fidelidade, mas esteve muito bem ancorada, como tem que estar, na situação histórica.

Essa lição, aliás, a oposição parece não ter aprendido. Em artigo na Folha de ontem, Eliana Cantanhêde empurra pra Aécio Neves parte da responsabilidade pela situação de Serra, que agora o Datafolha confirma como desesperadora. Por um lado, é São Paulo não admitindo perder sozinho por sua responsabilidade. Por outro, é arrogância pura da oposição achar que Dilma vai ganhar a eleição por conta desses ou daqueles deslizes, como se tudo dependesse de seus desejos e decisões.

Desculpa aí, mas a realidade histórica manda lembranças.

19 de julho de 2010

O “trololó” sobre o controle da mídia, de novo

Por mais deprimente que seja, era esperado que a história do medo dos “radicais do PT” aparecesse na campanha para presidente, mas talvez não logo no seu início oficial. Primeiro foi a capa da Veja da semana passada, com um dragão vermelho de cinco cabeças representando “o monstro do radicalismo”. Depois foi o vice Índio chamando Dilma de guerrilheira e ateia. Falta de ideia melhor? Desespero?
 
A Veja, que antes via em Lula o risco de não domar os monstros radicais, agora é só elogios pra habilidade política do presidente, mas não deixa de desconfiar da capacidade de sua pupila para domar a fera. Os argumentos são basicamente dois. Em primeiro lugar, a lambança que a campanha de Dilma fez ao protocolar do TSE, como programa de governo, o programa do partido, que conteria as tais ameaças à democracia. Evidência, claro, de que o discurso moderado seria apenas maquiagem de campanha, enquanto os planos de dominação estariam internamente bem claros para os petistas.
 
Em segundo, a inexperiência política da pupila: puseram um cientista político para prever uma “briga fratricida de consequências imprevisíveis”, caso os resultados econômicos de um possível governo Dilma decepcionem. Fora o argumento de autoridade (e essa posição dificilmente seria consensual na área, imagino), não se apresentam fatos a sustentar essa tempestade no horizonte.
 
O pior é que, estando de férias aqui em Salvador,  vejo em conversas na família que a coisa não deixa de ter suas consequências, e eis que se repetem as falácias todas, inclusive a de uma suposta tendência petista a controlar os meios de comunicação. Passei um olho nas temíveis propostas de comunicação do PT, baseadas nos resultados da Confecom – Conferência Nacional de Comunicação, que aconteceu no ano passado.  Propostas feitas por grupos de trabalhos formados por pessoas de diversas áreas de atuação e diversos estados. Têm valor só de consulta para o governo federal, e não normativo. Mas dão um medo, cruzes!
 
Já em uma das seções introdutórias do documento do Ministério das Comunicações que divulgou as propostas, o leitor da Veja certamente esperaria encontrar a demonização do empresariado da comunicação nacional, pois ali é feito um panorama histórico do setor no país. Em vez disso, encontra-se, por exemplo, uma afirmação como esta, a respeito de Chateubriand:
“Se hoje a telenovela brasileira é um dos produtos mais conhecidos em diferentes continentes, a TV surgiu do improviso e da ousadia empresarial de um homem de negócios que enxergou o futuro”.
Se isso não for o bastante para fazer tremer os meios de comunicação empresariais, que se preparem para esta tirânica declaração de vontade quanto à rede mundial de computadores:
“Manter livre de restrições a circulação de informações pela Internet.”
Os petistas, como se percebe, pretendem transformar o país não na Venezuela Chavista, mas sim na China. Daqui a pouco o pessoal da Google também nos deixa.
 
O que explica tanta preocupação, no fundo, só pode ser a abertura de discussões sobre a concessão pública para a radiodifusão. É de propósito que nunca se dispõem a pôr, de um lado, a imprensa e, de outro, o rádio e a TV. No caso desses últimos, há uma limitação física quanto aos canais possíveis. Pense na TV VHF ou na rádio FM, por exemplo. Em parte por isso, cabe ao Estado dizer com que critérios serão obtidas as concessões para as empresas e de acordo com que objetivos. A questão do sinal digital pode ter mudado um pouco as coisas, especialmente quanto â limitação, mas acredito que o quadro geral seja esse aí.
 
Como a concessão ocorreu na prática no Brasil? Sempre por meio de influência, não política, mas de politicagem. O número de rádios nas mãos de políticos, sempre que divulgado, impressiona. Na Bahia, a retransmissora da Globo é da família de ACM desde que este foi ministro das Comunicações de Sarney. E sabemos bem qual o efeito disso.
É essa a liberdade que se trata de proteger: a de tomar um espaço de interesse público, que deveria seguir critérios estabelecidos pela Constituição, como coisa privada, um negócio feito outro qualquer. Isso não impede, contudo, que os empresários façam valer seus interesses politicamente.
 
O que realmente assusta nas propostas da Confecom, assim, só pode ser a disposição de discutir o problema das concessões. Fala-se ali em fiscalizar o cumprimento das diretrizes constitucionais sobre o tema; da publicidade dos dados relativos às concessões; da obrigatoriedade de os interessados apresentarem, no momento da renovação, documentos comprovando que cumpriram suas obrigações, etc. Enfim, alguém parece lembrar que se trata de um serviço público, e que as empresas devem ser cobradas por isso.
 
Além disso, certamente não agradam muito as propostas de limitação do direito de propriedade relativo aos meios de comunicação: aumento da restrição para propriedade por estrangeiros e, o que deve soar como heresia para um grupo como a Globo, a proibição da propriedade cruzada de meios de comunicação (quando a empresa tem jornal, revista, rádio, TV), sempre para controlar a criação de monopólios. Partidários mais renhidos do capitalismo nada teriam contra esse tipo de proteção, suponho.
Acredito que a questão do Conselho de Jornalismo não incomoda. Só aparece no meio das lamúrias pra fazer nuvem de fumaça e ainda é uma cereja do bolo na cooptação de jornalistas, que surpreendentemente agem como quem não sabe de nada ao repetirem, com convicção de teleprompt, editoriais a favor dos patrões.
 
Mesmo que o plano de governo de Dilma seja uma espécie de Mogwais (aqueles bichinhos fofinhos) prestes a transformarem-se em Gremlins, é de se perguntar de quem mesmo devemos ter medo. A questão não é se a mídia deve ser controlada, mas sim impedir que uns poucos a controlem se lixando pro interesse público.
 
PS - Era pra eu falar de outras coisas, mas este post já tá grande demais. A edição da Veja com o dragão na capa é um primor, e muito inspiradora.
 
- Veja aqui o documento sobre o Confecom (clicando em “saiba mais”, aparece a opção de baixar o arquivo).

14 de junho de 2010

O que pode decidir as eleições?

Final de semestre, copa do mundo. Falta de tempo pra escrever, e, provavelmente, de disposição pra ler sobre política. Então nada de sair dissertando sobre o quanto pode ser simbólico o lançamento da candidatura de Serra num decadente clube de classe média em Salvador, dizem que sem nenhum negro no palanque. Nem dá pra comentar as últimas da história de um dossiê supostamente feito pela campanha de Dilma contra Serra – o mais concreto dela, por enquanto, é que há um livro do jornalista Amaury Ribeiro Júnior sobre as privatizações da era FHC, a ser lançado depois da copa.

Pra lá disso tudo, o que talvez realmente influencie essa campanha são os fenômenos econômicos que ocorreram durante o governo Lula, como mostra matéria da Folha, que fez boa entrevista com o economista Marcelo Neri, chefe do Centro de Pesquisas Sociais da FGV do Rio. Eis alguns dados:

- queda da desigualdade por sete anos consecutivos, fora um, e retomada da redução em ritmo mais acelerado este ano;

- 10% de redução de pobreza de abril de 2009 a abril de 2010;

- ascensão de 31,9 milhões de brasileiros às classes ABC;

- 20 milhões de pessoas saíram da pobreza em cinco anos;

- a diminuição da pobreza não se deve só ao Bolsa Família, mas também ao aumento do emprego formal, da renda do trabalho e à valorização do salário mínimo (de 1,4 a 2,2 cestas básicas):

“Para Lena Lavinas, especialista no assunto no Instituto de Economia da UFRJ, a pobreza no Brasil cai especialmente por conta da criação de vagas formais no mercado de trabalho.
‘Cerca de 90% dos novos empregos formais nos últimos anos pagam até três salários mínimos (R$ 1.530,00). Isso favorece diretamente os mais vulneráveis’, diz Lena.
Além de criar quase 13 milhões de empregos formais (de 28,7 milhões para 41,5 milhões), o governo Lula patrocinou um aumento real (acima da inflação) de 53,6% para o valor do salário mínimo.”

“Ademir Figueiredo, coordenador do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), afirma que a recuperação do salário mínimo ‘foi o grande ‘programa social’ de Lula’. "Pois ele tem impacto direto sobre o crescimento da renda familiar."

A história do dossiê é vaguíssima, e deve atingir muito mais a candidatura de Serra no segundo semestre. A política externa, ao contrário do que se pensa, tem apoio da opinião pública. Não parece haver condição política de derrubar a candidatura Dilma nos tribunais, seja pela aprovação de Lula, seja pela falta de base social da oposição (no discurso de Serra, isso virou “não tenho esquadrão de militantes pagos com dinheiro público”, ou algo assim), seja porque nesse campo os demo-tucanos tampouco têm ficha limpa.

Muito mais que isso, o bom momento econômico tende a ter um papel importante (veja no NPTO), e essa transformação social é atribuída principalmente ao governo Lula - em minha opinião, de forma justa. Não é lábia nem simbolismo, foram feitos reais, sentidos pela maioria.

Enfim, é a realidade social, estúpido.