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29 de outubro de 2010

Uma idiotice + uma idiotice + uma idiotice + … = ?

Futorologia, já dizia Celso de Barros, é um exercício fundamental pra qualquer eleitor: no fundo, a gente acaba escolhendo um candidato ao invés do outro, porque criamos um futuro no qual seus feitos serão mais proveitosos, individual ou socialmente, do que os do seu adversário. Mas futurologia é uma coisa, o que este vídeo faz é outra completamente diferente.

7 de setembro de 2010

O elo débil e o súbito pudor

Brincadeira a matéria que deu a manchete da Folha de hoje. Consegue relacionar o contador Antônio Carlos Atella Ferreira – que entrou com o pedido pra conseguir os dados fiscais da filha de Serra com procuração falsa – até com o caso Celso Daniel. A linha de raciocínio é realmente admirável. Pra quem não leu:

Registro em cartório e relações familiares derrubam versão do PT sobre contador

FLÁVIO FERREIRA
SILVIO NAVARRO
DE SÃO PAULO


Registros nos cartórios eleitorais de Mauá e Ribeirão Pires (Grande São Paulo) e relações familiares derrubam a versão do PT de que o contador Antonio Carlos Atella Ferreira, responsável pela violação do sigilo fiscal de Veronica Serra com uma procuração falsa, não tem ligação com o partido.


Os documentos nos cartórios desmentem a versão de que a filiação de Atella não foi efetivada por erro de grafia do nome dele, como a Folha.com revelou ontem. No final de semana, o PT argumentou que a filiação de Atella não havia se consumado pois o registro havia sido feito com a grafia do nome errada -constava "Atelka" e não Atella, segundo o partido.


No entanto o banco de dados da 217ª Zona Eleitoral, em Mauá, indica que Atella é filiado ao PT desde 20 de outubro de 2003. Para a Justiça Eleitoral, nunca houve pedido formal de desfiliação da sigla. O tribunal informou que os partidos atualizam as listas de filiados duas vezes por ano.


Em 10 de abril de 2006, ocorreu mudança do domicílio eleitoral do contador para Ribeirão Pires. Ou seja, para a Justiça, Atella passou a ter filiação partidária em Mauá e domicílio eleitoral em Ribeirão Pires.


Isso levou o sistema eletrônico do TRE paulista, em novembro de 2009, a excluir o nome dele do banco de dados. O sigilo de Veronica, filha do candidato do PSDB à Presidência, José Serra, foi violado dois meses antes.


O fato de o nome de Atella ter sido excluído do banco de dados não significa que ele tenha sido desfiliado. O cartório da 183ª Zona Eleitoral emitiu uma certidão na qual declara que "não há pedido de desfiliação do eleitor acima mencionado (Atella) nos arquivos desta unidade eleitoral".


Atella negou filiação partidária no primeiro momento. Mas, após o TRE-SP confirmar o vínculo, disse que "não se lembra" da filiação. Tão logo a filiação foi divulgada, o presidente do PT, José Eduardo Dutra, se apressou em negar o vínculo dele com a sigla.


FAMÍLIA


A família de Atella é militante histórica e fundadora do diretório do PT de Mauá na década de 80. Neuza Maria Ferreira Jaloretto, sua irmã, é filiada ao PT desde 21 de maio de 1981. A inscrição dela foi feita na 217ª Zona Eleitoral, a mesma em que Atella deu entrada na sua filiação.


Servidora da área da saúde da Prefeitura de Mauá, ela é casada com o oficial de Justiça João Primo Jaloretto, fundador do PT na cidade. Segundo o presidente do PT paulista, Edinho Silva, Jaloretto é militante histórico. O ingresso no PT ocorreu a partir de associações de bairro nos anos 80.


"Ele [João Primo] foi fundador do PT de Mauá, é militante do PT", disse. A família Jaloretto é dona de um imóvel alugado para as atividades políticas do deputado estadual Donisete Braga (PT). O aluguel, no valor de R$ 1.340 mensais, é pago a Durvalino Jaloretto com a verba do gabinete de Braga na Assembleia Legislativa.


Integrante do grupo político do prefeito Oswaldo Dias (PT), Braga é uma das lideranças do partido no ABC. Ele enfrentou processo -arquivado em 2006- por envolvimento no assassinato do prefeito Celso Daniel (PT). A quebra do sigilo telefônico de Braga, que nega envolvimento no crime, revelou que ele estava próximo ao local do cativeiro de Daniel um dia antes da sua morte.

A família de Atella em Mauá é ligada à do prefeito Oswaldo Dias. As filhas de ambos, Letícia Dias e Juliana Jaloretto, estudaram juntas. Hoje, o filho de Dias, Leandro, preside o diretório municipal do partido após seu grupo derrotar o do ex-vice-prefeito Márcio Chaves. A Folha identificou mais dois familiares petistas em Mauá: Maria do Carmo Jaloretto, filiada desde abril de 1981, e Anna Clélia Jaloretto, desde 1988.

Colaborou RANIER BRAGON, de Brasília

Resumindo, é isso: Atella é irmão de Neuza, filiada ao PT e casada com Jaloretto, fundador do partido em Mauá. A família deste (a família do cunhado, nem sequer este mesmo) tem um imóvel alugado pelo deputado estadual Donisete Braga (PT), que foi investigado (não condenado, pois o processo foi arquivado) por envolvimento no caso Celso Daniel.

Alguma dúvida de que a grande maioria dos leitores passará batida pela debilidade da linha de relação e simplesmente engolirá a ideia de que esse procuradorzinho é mais um desses sujos do PT?

E outra coisa: desde quando a imprensa se importou tanto com quebra de sigilo a ponto de se concentrar inteiramente nessa ilegalidade e não nas informações resultantes dela? Quantas vezes os noticiários se valem de informações vazadas irregularmente da polícia, do Ministério Público, do Judiciário para rechear as reportagens no vácuo deixado pela falta de jornalismo investigativo? E as câmeras escondidas?

Quebra de sigilo é grave. A resposta certa é sair quebrando regras mínimas de coerência e até bom senso?

31 de julho de 2010

A cara da social-democracia brasileira

As últimas declarações de José Serra e de seu vice, Índio da Costa, demonstram o tamanho do problema eleitoral com que se depara o PSDB. Durante a década de 1990, o partido conseguiu emplacar sua agenda política – Estado mínimo, estabilidade econômica, etc. –, o que parece, na esteira de um pensamento econômico único, ter esvaziado um discurso propriamente mais de esquerda. Era a tecnocracia superando a ideologia.

Mas os oito anos de um governo petista à frente da República parece ter embaralhado os discursos. A suposta esquerda se firmou como um excelente gerente do capital especulativo – às custas, é bem verdade, do primado ético de que sempre se orgulhou –, deixando ao PSDB duas opções: vender-se, por um lado, como a esquerda que o PT teria deixado de ser – angariando para si os beneficiados e os admiradores das conquistas sociais da era Lula –, radicalizar, por outro, um viés latente desde de sua aproximação com PFL: uma guinada sem máscaras ao que há de mais conservador na direita.

Se instaura, assim, uma espécie de esquizofrenia política: destronada daquilo em que reinava absoluta, a oposição atira para todos os lados, buscando desesperadamente reconquistar os votos que, pesquisa a pesquisa – excetuando, claro, o enigmático Datafolha – lhe escorrem pelas mãos.

Acontece que, no espectro político mais à esquerda – seja ele mais próximo aos  inflamados do PSTU ou à entourage do PT –, essa estratégia tem feito água. Resta, então, aquele eleitor mais à direita, naturalmente inclinado a não votar no partido de Lula sob hipótese alguma.

O problema – e o perigo – está na mescla espúria  que surge como conseqüência da aproximação de um partido social-democrata daquilo que há de mais conservador no cenário político brasileiro: a defesa da democracia, da liberdade de imprensa, do Estado de direito passa às mãos daqueles mesmos que, por mais de duas décadas, foram os primeiros a pô-los em suspenso:

Memorial 1964

O clamor das manifestações públicas e sociais do início de 1964 desaguou no Movimento Democrático de 31 de março, marco imorredouro da evolução política nacional, quando as forças democráticas, lideradas pelas Forças Armadas e em defesa da nossa Soberania, impediram que o comunismo internacional tomasse o poder. Eterna homenagem aos que lutaram em prol da Democracia e da Liberdade.

Esvaziados daquilo que possuem de mais radical, conceitos como Democracia e Liberdade perdem sua capacidade transformadora, ficando limitados a uma democracia de minorias e uma liberdade de fachada, ambos encobrindo um pensamento econômico e social uniforme e elitista. Esse parece ser o triste legado da social-democracia brasileira.

19 de julho de 2010

O “trololó” sobre o controle da mídia, de novo

Por mais deprimente que seja, era esperado que a história do medo dos “radicais do PT” aparecesse na campanha para presidente, mas talvez não logo no seu início oficial. Primeiro foi a capa da Veja da semana passada, com um dragão vermelho de cinco cabeças representando “o monstro do radicalismo”. Depois foi o vice Índio chamando Dilma de guerrilheira e ateia. Falta de ideia melhor? Desespero?
 
A Veja, que antes via em Lula o risco de não domar os monstros radicais, agora é só elogios pra habilidade política do presidente, mas não deixa de desconfiar da capacidade de sua pupila para domar a fera. Os argumentos são basicamente dois. Em primeiro lugar, a lambança que a campanha de Dilma fez ao protocolar do TSE, como programa de governo, o programa do partido, que conteria as tais ameaças à democracia. Evidência, claro, de que o discurso moderado seria apenas maquiagem de campanha, enquanto os planos de dominação estariam internamente bem claros para os petistas.
 
Em segundo, a inexperiência política da pupila: puseram um cientista político para prever uma “briga fratricida de consequências imprevisíveis”, caso os resultados econômicos de um possível governo Dilma decepcionem. Fora o argumento de autoridade (e essa posição dificilmente seria consensual na área, imagino), não se apresentam fatos a sustentar essa tempestade no horizonte.
 
O pior é que, estando de férias aqui em Salvador,  vejo em conversas na família que a coisa não deixa de ter suas consequências, e eis que se repetem as falácias todas, inclusive a de uma suposta tendência petista a controlar os meios de comunicação. Passei um olho nas temíveis propostas de comunicação do PT, baseadas nos resultados da Confecom – Conferência Nacional de Comunicação, que aconteceu no ano passado.  Propostas feitas por grupos de trabalhos formados por pessoas de diversas áreas de atuação e diversos estados. Têm valor só de consulta para o governo federal, e não normativo. Mas dão um medo, cruzes!
 
Já em uma das seções introdutórias do documento do Ministério das Comunicações que divulgou as propostas, o leitor da Veja certamente esperaria encontrar a demonização do empresariado da comunicação nacional, pois ali é feito um panorama histórico do setor no país. Em vez disso, encontra-se, por exemplo, uma afirmação como esta, a respeito de Chateubriand:
“Se hoje a telenovela brasileira é um dos produtos mais conhecidos em diferentes continentes, a TV surgiu do improviso e da ousadia empresarial de um homem de negócios que enxergou o futuro”.
Se isso não for o bastante para fazer tremer os meios de comunicação empresariais, que se preparem para esta tirânica declaração de vontade quanto à rede mundial de computadores:
“Manter livre de restrições a circulação de informações pela Internet.”
Os petistas, como se percebe, pretendem transformar o país não na Venezuela Chavista, mas sim na China. Daqui a pouco o pessoal da Google também nos deixa.
 
O que explica tanta preocupação, no fundo, só pode ser a abertura de discussões sobre a concessão pública para a radiodifusão. É de propósito que nunca se dispõem a pôr, de um lado, a imprensa e, de outro, o rádio e a TV. No caso desses últimos, há uma limitação física quanto aos canais possíveis. Pense na TV VHF ou na rádio FM, por exemplo. Em parte por isso, cabe ao Estado dizer com que critérios serão obtidas as concessões para as empresas e de acordo com que objetivos. A questão do sinal digital pode ter mudado um pouco as coisas, especialmente quanto â limitação, mas acredito que o quadro geral seja esse aí.
 
Como a concessão ocorreu na prática no Brasil? Sempre por meio de influência, não política, mas de politicagem. O número de rádios nas mãos de políticos, sempre que divulgado, impressiona. Na Bahia, a retransmissora da Globo é da família de ACM desde que este foi ministro das Comunicações de Sarney. E sabemos bem qual o efeito disso.
É essa a liberdade que se trata de proteger: a de tomar um espaço de interesse público, que deveria seguir critérios estabelecidos pela Constituição, como coisa privada, um negócio feito outro qualquer. Isso não impede, contudo, que os empresários façam valer seus interesses politicamente.
 
O que realmente assusta nas propostas da Confecom, assim, só pode ser a disposição de discutir o problema das concessões. Fala-se ali em fiscalizar o cumprimento das diretrizes constitucionais sobre o tema; da publicidade dos dados relativos às concessões; da obrigatoriedade de os interessados apresentarem, no momento da renovação, documentos comprovando que cumpriram suas obrigações, etc. Enfim, alguém parece lembrar que se trata de um serviço público, e que as empresas devem ser cobradas por isso.
 
Além disso, certamente não agradam muito as propostas de limitação do direito de propriedade relativo aos meios de comunicação: aumento da restrição para propriedade por estrangeiros e, o que deve soar como heresia para um grupo como a Globo, a proibição da propriedade cruzada de meios de comunicação (quando a empresa tem jornal, revista, rádio, TV), sempre para controlar a criação de monopólios. Partidários mais renhidos do capitalismo nada teriam contra esse tipo de proteção, suponho.
Acredito que a questão do Conselho de Jornalismo não incomoda. Só aparece no meio das lamúrias pra fazer nuvem de fumaça e ainda é uma cereja do bolo na cooptação de jornalistas, que surpreendentemente agem como quem não sabe de nada ao repetirem, com convicção de teleprompt, editoriais a favor dos patrões.
 
Mesmo que o plano de governo de Dilma seja uma espécie de Mogwais (aqueles bichinhos fofinhos) prestes a transformarem-se em Gremlins, é de se perguntar de quem mesmo devemos ter medo. A questão não é se a mídia deve ser controlada, mas sim impedir que uns poucos a controlem se lixando pro interesse público.
 
PS - Era pra eu falar de outras coisas, mas este post já tá grande demais. A edição da Veja com o dragão na capa é um primor, e muito inspiradora.
 
- Veja aqui o documento sobre o Confecom (clicando em “saiba mais”, aparece a opção de baixar o arquivo).

5 de junho de 2010

A cobertura da Folha sobre o “dossiê”

Sábado de manhã, me deparo com reportagem da Carta Capital intitulada “O dossiê do dossiê do dossiê…”. Pô, eu vinha preparando um post pro blogue chamado “Dossiê do dossiê”. Perdi o título, mas insisto, até porque minha abordagem vai ser um pouco diferente.

Na quinta, 3 de junho, Luiz Nassif publicou texto que esclareceu bastante os bastidores desse suposto dossiê contra Serra supostamente organizado pela campanha adversária supostamente por ordens da própria Dilma. Bem verossimilhante, o artigo diz mais ou menos o seguinte: a acusação parece ter sido uma maneira de o tucano defender-se preventivamente da divulgação de um livro que está sendo escrito pelo repórter Amaury Ribeiro Jr. sobre as privatizações da era FHC (quando mais?). E o pior é como a coisa teria surgido:

“Quando começou a disputa dentro do PSDB, pela indicação do candidato às eleições presidenciais, correram rumores de que Serra havia preparado um dossiê sobre a vida pessoal de seu adversário (no partido) Aécio Neves.

A banda mineira do PSDB resolveu se precaver. E recorreu ao Estado de Minas para que juntasse munição dissuasória contra Serra. O jornal incumbiu, então, seu jornalista Amaury Ribeiro Jr de levantar dados sobre Serra. Durante quase um ano Amaury se dedicou ao trabalho, inclusive com viagens à Europa, atrás de pistas.(…)

Nesse ínterim, cessou a guerra interna no PSDB e Amaury saiu do Estado de Minas e ficou com um vasto material na mão. Passou a trabalhar, então, em um livro, que já tem 14 capítulos, segundo informações que passou a amigos em Brasília.”

Na mesma quinta-feira, o jornalismo da Folha se ateve ao declaracionismo (a nova versão do criacionismo pelo verbo), e isso rendeu a manchete principal: Serra acusa Dilma de fazer dossiê; petista nega. Nesse dia seguiram-se vários quebra-paus, e o PT acabou decidindo processar Serra pela acusação. Gostei da troca de afagos entre o jornalista Ricardo Noblat e o presidente do PT, José Eduardo Dutra no Twitter:

“@BlogdoNoblat - Na versão que começou a circular, tem 110 páginas o dossiê contra Serra elaborado pelos novos aloprados do PT. 2:53 AM Jun 3

@ZéDutra 13 - Você sabe quem elaborou o tal dossie? Então diga. Ficar falando em "novos aloprados do PT" é desonestidade intelectual 9:41 AM Jun 3

@BlogdoNoblat - Eu sei, e o senhor sabe. E não me venha falar em desonestidade intelectual. Há companheiros do senhor que entendem disso melhor.

@ZéDutra 13 - Vc é um jornalista bem informado e deve saber a verdadeira origem desse suposto dossiê. Nâo queira jogá-lo no nosso colo.”

Ontem, sexta, a Folha apenas publicou a notícia sobre a representação do PT e divulgou alguns dados sobre o dossiê, ainda relacionando-o à campanha de Dilma. O jornal ignorou inteiramente o texto de Nassif, que comentou a omissão.

Apenas hoje as edições impressa e online mencionam o repórter Amaury Ribeiro Jr, em matéria com a seguinte manchete: “Jornalista e delegado são pivôs de intriga do dossiê”. Em vez de ligar o início de suas investigações ao PSDB mineiro, a Folha prefere apontar para o Estado de Minas, “próximo politicamente de Aécio”.

Seguem-se minhas questões.

1) Por que a Folha ignorou inteiramente o texto de Luiz Nassif, autor do furo?

Como se sabe, Nassif foi colunista do jornal e, se não me engano, membro do conselhor editorial. Saiu durante o governo Lula, meio que num clima de que teria perdido sua “imparcialidade”. Gostaria de ver o trecho do manual da Folha que diz ser proibido atribuir afirmações a ex-empregados.

Talvez então se tratasse de rigor editorial, da necessidade de primeiro apurar os fatos. Ora, aposto com qualquer um que a Folha de amanhã terá trocentas declarações que por si só viram notícias, de fontes muito mais suspeitas que Nassif.

Para justificar a repercussão de uma afirmação como a de Serra, de que Dilma era a principal responsável pelo tal dossiê, certamente se evocaria um dos pilares éticos da empresa: o direito do leitor à informação. Pouco importa se era apenas jogo de cena do candidato, a Folha seria como aquele seu amigo que nunca te esconderia nada, ou aquela tia que causa frisson em reuniões familiares por sua falta de papas na língua. Ao leitor cabe julgar o mérito da informação. O mesmo vale para invasão de privacidade, violação de sigilos bancário e telefônico, reprodução de buchichos dos corredores da política, etc. É claro, tudo isso é válido em caso de predomínio do interesse público, mas a questão é: quem julga o que deve ser informado e o que deve ser calado, e com que critérios?

Esse caso é até pouco grave, considerando que bem ou mal a Folha hoje deu algumas informações sobre o livro do jornalista, que, a partir de uma matéria da respeitabilíssima Veja, virou o “dossiê” da tal intriga. A essa altura, era inevitável. Mas se trata apenas de um exemplo entre mil.

Não nos enganemos: o direito do leitor à informação é o direito da empresa jornalística de controlar a informação. Com a internet, podem ter se ampliado as fontes, mas muito pouca gente lê blogues de política, seja por desinformação, seja por falta de acesso, seja porque, convenhamos, há coisas muito mais interessantes e bem escritas pra se ler nesta vida.

2) Por que a manchete de hoje enfatiza o papel do jornalista e do delegado?

A pergunta me parece importante porque há ao menos duas outras questões de muito mais valor jornalístico: se é verdade que Aécio e seu grupo político mandaram fazer um dossiê preventivo contra Serra; e o que o livro de Amaury Ribeiro Jr. traz de novo sobre as privatizações (ele não teria escrito tanto apenas pra recontar a história).

Existe ainda a questão do envolvimento do delegado Onézimo de Souza com o episódio da Lunus, que tirou Roseana Sarney do páreo e deixou campo aberto pra candidatura de Serra na campanha de 2002.

A ideia, suspeito, é levar um pouco mais adiante a história de que há novos “aloprados”, ou “neoaloprados”, como já se disse por aí (um rótulo assim, percebam, é extremamente eficaz). Baixada a poeira, tanto faz o que de fato aconteceu ou deixou de acontecer. Até outubro, veremos pulularem remissões a esses “fatos” de que a campanha de Dilma retoma as piores práticas do partido, o que aliás apenas revelaria sua faceta autoritária e o desrespeito geral desses stalinistas pelos princípios democráticos, como a legalidade e a liberdade de imprensa.

Bismarck é, se bem me lembro, o autor da célebre máxima segundo a qual as leis são como as salsichas: é melhor não saber como se fazem. O mesmo, alguém já disse, aplica-se às notícias. Outra afirmação notória sobre a legislação - “Aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei” – também poderia ser dita do jornalismo: seu exercício deve ser mais cuidadoso quando se trata de fuçar a vida dos adversários.

10 de maio de 2010

Mais do mesmo

Que a oposição anda meio sem discurso, qualquer pessoa que freqüente a blogosfera já percebeu. A última de Serra é ótima. Em entrevista à rádio CBN, o candidato do PSDB se definiu “de esquerda”, quem sabe seguindo uma deixa de Caetano Veloso, que, numa sacada genial, viu o que ninguém mais foi capaz.

Talvez seja essa a razão porque algumas das críticas que se tem feito a Dilma tenha esse gosto de comida requentada. (E, percebam, não ignoro que comida requentada tem lá o seu sabor muito peculiar. Eu mesmo tenho uma certa predileção por feijoada dormida, mas isso é outro assunto.)

Lê-se hoje, por exemplo, no blog de Josias de Sousa que

“A oposição pergunta: Que feitos produziu a preferida de Lula para justificar a promoção?

A mesma oposição responde: Dilma ainda não deu ao país nenhuma realização palpável.”

Ignoremos o fato de que o respeitável jornalista encarna tanto a voz que pergunta quanto a que responde. É só mais um exemplo do papel que cabe a parte da mídia nessas eleições. Mais interessante, ao menos para o que pretendo agora, é levantar uma outra questão: a da inexperiência política da candidata do PT – ou do presidente Lula, como se repete a torto e a direito por aí.

Ao ler o blog do Josias, hoje pela manhã, me lembrei imediatamente de Patrícia Daniela, uma amiga do segundo grau. Aqueles eram outros tempos, quando ainda me dava ao trabalho de fazer campanha política abertamente. Pois bem, num desses momentos pré-eleitorais, em meados de 2002, perguntei a Paty o porquê de tamanha resistência a votar em Lula, ao que ela me respondeu: não votaria no então candidato do PT simplesmente porque ela nunca o havia visto governar, portanto não tinha como avaliá-lo.

O argumento não deixa de ter sua validade, mas ele tem lá os seus problemas. Primeiro, havia, sim, uma resistência ao que ela via como a empáfia de um metalúrgico sem formação acadêmica de querer governar a nação. Segundo, e isso eu me lembro de ter falado com ela, se experiência política fosse tão determinante assim, talvez devêssemos votar em ACM, cujo currículo eleitoral era bastante consistente.

Oito anos depois, com todos os erros e acertos de seu mandato, Lula deu provas suficientes de que, embora a experiência política seja importante, não é ela o que determina o sucesso ou o fracasso de um governo. Meus conhecimentos dos meandros da política são irrisórios, é verdade, mas me parece que esse culto à figura do presidente é um tanto pernicioso. É melhor eu me fazer mais claro: não estou dizendo que qualquer um pode ser presidente da república. Estou dizendo que, não sendo um ditador, ninguém governa sozinho. (Talvez nem esse o faça, mas pelo menos encarna a figura do faz-tudo.) Tão importante quanto aquele que é o primeiro mandatário da nação, é a equipe que ele convoca para assessorá-lo, para pôr em andamento um programa político sólido. E todos sabemos que foi exatamente nesse ponto em que o governo Lula mais acertou e mais fracassou.

Assim, meu grande medo em relação a um futuro governo Dilma tem pouco a ver com sua experiência, mas com o espaço que o PMDB dos Temers, dos Calheiros e dos Sarneys vai ter ao seu dispor. Do mesmo modo, temo o que seria um governo Serra, que conta com o apoio de um partido tão nefasto como o ARENA, perdão, PFL, desculpa, DEM. Mas isso não parece incomodar ninguém mais.

As críticas requentas, contudo, não param por aí. Uma outra que me tem tirado mais a paciência do que o meio campo do Vitória é a da radicalização do PT. Em fevereiro desse ano, a Veja levantou a bola:

“Lula logrou conter o ímpeto dos radicais, dando-lhes cargos periféricos e gordas verbas em troca de obediência canina. Dilma, se eleita, conseguirá?”

É impressionante. Quem se lembra da capa da mesma revista, publicada em 23 de outubro de 2002?

Veja

Antes era o preço pelo silêncio. Hoje, a inabilidade política de Dilma para controlar a radicalidade do partido. Oito anos de diferença, e a retórica do medo persiste. Uma idéia infundada, que alimenta o discursos de alguns dos setores mais conservadores do país. Me refiro, mais especificamente, a Reinaldo de Azevedo, com muito mais leitores, e a Walter, companheiro de um outro blogue, que não se cansa de nos mostrar as mazelas de um regime esquerdopata. E, aqui, tudo, absolutamente tudo o que o governo faz nada mais é do que uma manifestação de sua tendência stalinista e antidemocrática. Tendência essa que apenas alguns poucos eleitos têm a capacidade de perceber e a obrigação de nos fazer ver.

Pois bem, na ausência de um discurso que lhe seja próprio – em parte porque a pseudoesquerda, nas palavras sempre sábias de Josias de Sousa, lhe roubou uma parte considerável do seu programa político –, a direita brasileira tem requentado algumas das suas críticas a Lula. Espero, sinceramente, que o alcance dessas críticas seja o mesmo de 2002: a mesma lata de lixo de onde elas vieram.