Mostrando postagens com marcador serra. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador serra. Mostrar todas as postagens

2 de novembro de 2010

Mainardi na SaferNet

Aproveito a onda de denúncias à SaferNet Brasil sobre as porqueiras tuitadas recentemente pra lembrar de um caso. Diogo Mainardi, chorando a falta de critério de O Globo no aumento do número de seus colunistas, que incluíam Nizan Guanaes e Caetano Veloso, soltou das suas esculhambando os baianos.

Mandei o texto pra averiguarem se era caso de xenofobia. Recebi um código de acompanhamento, que até hoje não traz informação alguma. Isso foi em 31 de maio deste ano. (Tá, levei o sujeito bem mais a sério do que merece, mas foi até um jeito de testar o recurso).


Atualizações sobre #nordeste ou #nordestisto

A história que circula é de que as mensagens de preconceito no Twitter contra o Nordeste ganharam espaço a partir de uma mensagem de uma estudante de Direito paulista chamada Mayara Petruso. Ela teria criado a tag #nordestisto, que aparentemente é só um erro de digitação mesmo. Não sei como fizeram pra chegar até aí. O fato é que a sujeita já excluiu o tweet, mas não adiantou, porque capturaram a mensagem na tela (viva os nerds!). Ela pediu desculpas no orkut dizendo que não tem “problemas com essas pessoas” e que “errar é humano”. Aham.

Além do Correio do Povo (AL), linkado acima, li matérias no Diário de Pernambuco, em A Tarde (BA), no Correio da Bahia e no portal Terra. O primeiro afirma que o MP de Pernambuco já está fazendo algo a respeito, e a OAB-PE pode encaminhar pedido de investigação ao MPF no estado.

1 de novembro de 2010

Crônica apressada de almoço em São Paulo

Estamos entre o bairro da Aclimação e o da Liberdade. Sento pra almoçar numa mesa com seis lugares, vazia. Começo a comer seguindo a primeira dieta metódica que tento na vida: 1/4 do prato proteína, outro 1/4 carboidrato, e a metade restante, salada.

Chegam dois homens e uma mulher. Um mais gordinho e de óculos, que obviamente não segue minha dieta (nem minhas inclinações políticas, logo se verá), outro magro, todo penteado. A moça, loira, aquela cara de boa funcionária. Todos nos seus quarenta, devem trabalhar em alguma empresa ou hospital por aqui.

- Vou colocar na mesa do Zé Roberto um mapa da eleição. Da Bahia pra cima, Dilma. Esse é o Brasil que dá certo, ahá -diz o que não preenche a metade do prato com leguminosas.

31 de julho de 2010

A cara da social-democracia brasileira

As últimas declarações de José Serra e de seu vice, Índio da Costa, demonstram o tamanho do problema eleitoral com que se depara o PSDB. Durante a década de 1990, o partido conseguiu emplacar sua agenda política – Estado mínimo, estabilidade econômica, etc. –, o que parece, na esteira de um pensamento econômico único, ter esvaziado um discurso propriamente mais de esquerda. Era a tecnocracia superando a ideologia.

Mas os oito anos de um governo petista à frente da República parece ter embaralhado os discursos. A suposta esquerda se firmou como um excelente gerente do capital especulativo – às custas, é bem verdade, do primado ético de que sempre se orgulhou –, deixando ao PSDB duas opções: vender-se, por um lado, como a esquerda que o PT teria deixado de ser – angariando para si os beneficiados e os admiradores das conquistas sociais da era Lula –, radicalizar, por outro, um viés latente desde de sua aproximação com PFL: uma guinada sem máscaras ao que há de mais conservador na direita.

Se instaura, assim, uma espécie de esquizofrenia política: destronada daquilo em que reinava absoluta, a oposição atira para todos os lados, buscando desesperadamente reconquistar os votos que, pesquisa a pesquisa – excetuando, claro, o enigmático Datafolha – lhe escorrem pelas mãos.

Acontece que, no espectro político mais à esquerda – seja ele mais próximo aos  inflamados do PSTU ou à entourage do PT –, essa estratégia tem feito água. Resta, então, aquele eleitor mais à direita, naturalmente inclinado a não votar no partido de Lula sob hipótese alguma.

O problema – e o perigo – está na mescla espúria  que surge como conseqüência da aproximação de um partido social-democrata daquilo que há de mais conservador no cenário político brasileiro: a defesa da democracia, da liberdade de imprensa, do Estado de direito passa às mãos daqueles mesmos que, por mais de duas décadas, foram os primeiros a pô-los em suspenso:

Memorial 1964

O clamor das manifestações públicas e sociais do início de 1964 desaguou no Movimento Democrático de 31 de março, marco imorredouro da evolução política nacional, quando as forças democráticas, lideradas pelas Forças Armadas e em defesa da nossa Soberania, impediram que o comunismo internacional tomasse o poder. Eterna homenagem aos que lutaram em prol da Democracia e da Liberdade.

Esvaziados daquilo que possuem de mais radical, conceitos como Democracia e Liberdade perdem sua capacidade transformadora, ficando limitados a uma democracia de minorias e uma liberdade de fachada, ambos encobrindo um pensamento econômico e social uniforme e elitista. Esse parece ser o triste legado da social-democracia brasileira.

22 de julho de 2010

Humor em campanha

A gente fez este blogue pra escrever textos mais compridinhos e de análise (ou pelo menos metidos a isso), eu sei. Mas não resisto a postar os dois vídeos seguintes. São amostras de como, na internet, o humor também deve render na campanha.

Alguns talvez não conheçam o contexto. O primeiro se refere a uma reação meio raivosa de Serra no programa Roda Viva a uma pergunta sobre pedágios feita por Heródoto Barbeiro. A isso se seguiu, de acordo com o blog de Luis Nassif, entre outros, uma intervenção do tucano na demissão do jornalista do cargo de apresentador do programa. Depois foi a vez de Gabriel Priolli, que deixou a gerência de jornalismo da TV Cultura logo após uma reportagem também sobre os pedágios.

O outro vídeo  remete ao fato de policiais terem agredido  professores da rede pública estadual  de SP durante a última greve.

14 de junho de 2010

O que pode decidir as eleições?

Final de semestre, copa do mundo. Falta de tempo pra escrever, e, provavelmente, de disposição pra ler sobre política. Então nada de sair dissertando sobre o quanto pode ser simbólico o lançamento da candidatura de Serra num decadente clube de classe média em Salvador, dizem que sem nenhum negro no palanque. Nem dá pra comentar as últimas da história de um dossiê supostamente feito pela campanha de Dilma contra Serra – o mais concreto dela, por enquanto, é que há um livro do jornalista Amaury Ribeiro Júnior sobre as privatizações da era FHC, a ser lançado depois da copa.

Pra lá disso tudo, o que talvez realmente influencie essa campanha são os fenômenos econômicos que ocorreram durante o governo Lula, como mostra matéria da Folha, que fez boa entrevista com o economista Marcelo Neri, chefe do Centro de Pesquisas Sociais da FGV do Rio. Eis alguns dados:

- queda da desigualdade por sete anos consecutivos, fora um, e retomada da redução em ritmo mais acelerado este ano;

- 10% de redução de pobreza de abril de 2009 a abril de 2010;

- ascensão de 31,9 milhões de brasileiros às classes ABC;

- 20 milhões de pessoas saíram da pobreza em cinco anos;

- a diminuição da pobreza não se deve só ao Bolsa Família, mas também ao aumento do emprego formal, da renda do trabalho e à valorização do salário mínimo (de 1,4 a 2,2 cestas básicas):

“Para Lena Lavinas, especialista no assunto no Instituto de Economia da UFRJ, a pobreza no Brasil cai especialmente por conta da criação de vagas formais no mercado de trabalho.
‘Cerca de 90% dos novos empregos formais nos últimos anos pagam até três salários mínimos (R$ 1.530,00). Isso favorece diretamente os mais vulneráveis’, diz Lena.
Além de criar quase 13 milhões de empregos formais (de 28,7 milhões para 41,5 milhões), o governo Lula patrocinou um aumento real (acima da inflação) de 53,6% para o valor do salário mínimo.”

“Ademir Figueiredo, coordenador do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), afirma que a recuperação do salário mínimo ‘foi o grande ‘programa social’ de Lula’. "Pois ele tem impacto direto sobre o crescimento da renda familiar."

A história do dossiê é vaguíssima, e deve atingir muito mais a candidatura de Serra no segundo semestre. A política externa, ao contrário do que se pensa, tem apoio da opinião pública. Não parece haver condição política de derrubar a candidatura Dilma nos tribunais, seja pela aprovação de Lula, seja pela falta de base social da oposição (no discurso de Serra, isso virou “não tenho esquadrão de militantes pagos com dinheiro público”, ou algo assim), seja porque nesse campo os demo-tucanos tampouco têm ficha limpa.

Muito mais que isso, o bom momento econômico tende a ter um papel importante (veja no NPTO), e essa transformação social é atribuída principalmente ao governo Lula - em minha opinião, de forma justa. Não é lábia nem simbolismo, foram feitos reais, sentidos pela maioria.

Enfim, é a realidade social, estúpido.

8 de junho de 2010

Soninha entre demônios e capetas

 Site do PPS

Li um texto interessante de Soninha Francine, explicando o porquê de seu apoio a José Serra. Um dos pontos principais é que, na sua experiência como vereadora, ela viu ser injusta a transformação do então prefeito no diabo em pessoa, feita pelo seu partido na época, o PT. Um trecho:

“Enfim, eu o detestava. Até ser vereadora e ele, prefeito. E descobrir que o demônio que pintavam não era nada daquilo. Mal humorado, impaciente, carrancudo, ríspido demais às vezes? Sim. Mau caráter? Não.”

Um belo texto, convincente. Utiliza-se da infalível construção em torno do eixo aparência / realidade, mostra a transformação da personagem no curso da narrativa e faz apelo a uma imagem de tipo novo na política, com “papo real”. Por isso, e pela moral que Soninha tem, aliás merecida, o discurso faz efeito, o que se percebe bem neste comentário:

“Rangel disse...

Bacana da parte dela. Acho muito legal alguém abandonar as paixões partidárias e ver a coisa pelo lado prático, ali, no 'meiozão', na realidade dos fatos e registrar pra quem quiser ler.
Parabéns e agora sou seu fã, Soninha.”

Sem dúvida são empobrecedoras essas reduções maniqueístas do outro a demônios. Elas forçam a barra, envolvem simplificações, dependem de baixo nível e, em termos de eficiência de campanha (o que não é o mais importante), acabam até fortalecendo o adversário, pois comprometem a credibilidade de quem as formula.

Dá pra perguntar, porém, se a própria oposição hoje não vive de uma, com o perdão, capetização do petismo. Se o  mensalão não conseguiu colar na imagem de Lula – acima do bem e do mal, segundo declaração recente de Serra – é certo que prejudicou e muito a opinião geral sobre o partido. Vejamos duas faces recentes do discurso sobre esse capetismo:

1) “O PT defendia a ética e fez igual a todo mundo, logo é pior que todos” – estranho raciocínio, que premia a honestidade daqueles que sempre roubaram, mas nunca fingiram fazer diferente (será que não?): o sujeito detesta petistas porque seriam como os outros e então passa a apoiar… os outros. Dessa forma, viu-se o PPS criticar o governo Lula, principalmente sob a bandeira da ética, de mãos dadas com o republicaníssimo DEM (como bem apontou Rodrigo, “o ARENA, perdão, PFL, desculpa, DEM”). Soninha foi sub-prefeita da Lapa na gestão Kassab até deixar o cargo para ser, agora, pré-candidata, provavelmente ao senado. Contra essa DEMonização, ela não falou. Na Bahia, o PPS declarou recentemente, contra o PT do governador Jaques Wagner, apoio ao PMDB de Geddel Vieira Lima.

Quanto à bandeira da ética, vale lembrar que Soninha só mudou de partido e de lado quando isso lhe daria oportunidade de candidatar-se à prefeitura. Marina Silva analogamente só saiu para o PV no momento em que se viabilizou sua candidatura à presidência. Nem de longe é questão agora de demonizá-las, até porque ambas  têm muito a adicionar a nosso contexto político. Mas, em se tratando de política, se devemos relativizar os demônios, não custa humanizar as figuras angelicais.

O PT e o Diabo - Blog Anatolli

2) “O PT é um partido autoritário, de DNA stalinista, usa da democracia só quando isso é de seu interesse imediato” – ora, quem quer que já tenha se aproximado da dinâmica interna do partido sabe da infinidade de tendências  discordantes, do quebra-pau que acontece ali dentro. Confunde-se unidade de ação (é de se perguntar se quem critica por alto a prática pensa em como deve funcionar um partido democrático) com tendências ditatoriais. Veja-se, além disso, como são tomadas as decisões no PSDB, entre três ou quatro grão-tucanos em restaurantes chiques dos Jardins. Mas ali estão nossos grandes democratas, certo?

Ainda que não se deva elogiar nem esconder a corrupção (aliás, quem deu mais liberdade à Polícia Federal e ao Ministério Público?), e que tudo indica ter havido uma forte hegemonia interna de um tendência no partido nos últimos anos, esse tipo de discurso em nada contribui para uma compreensão do que é o PT. É uma charge apressada, fácil e de gosto duvidoso.

Mas o erro mesmo é achar que a oposição ao PSDB e ao DEM dependa desses processos de diabolização. Raciocínios como o de Soninha às vezes dão a entender que só poderíamos ser contra Serra se o tomássemos como o satanás em sua forma vampiresca.

A questão não é simpatizar ou não com Serra pessoalmente, babar ou não com as entrevistas de FHC. O debate não deveria passar por quais são os nossos principais problemas e que grupo político tem condições de resolvê-los? No Brasil de hoje, que interesses cada um representa? Quem contribuiu mais para a redução das desigualdades? Qual deles tem mais compromisso com os mais pobres, com nossa soberania?

Me parece bastante possível posicionar-se a favor de Dilma e contra Serra a partir dessas questões, sem que ele nem de longe precise ser satanizado. E é um pouco demais dizer que as críticas à oposição só podem ser feitas na base do “ou Lula ou Lúcifer”.

7 de junho de 2010

“Dossiê”: entrevista e vontade de esclarecimento

A Folha divulgou hoje entrevista com o jornalista Amaury Ribeiro Júnior. Eis trecho:

“Por que ocorreu a reunião?
Não era só vazamento, começaram a roubar coisas lá dentro. Sabotagem. [...] O Onézimo chegou nessa reunião dizendo que ele tinha condições de destruir isso porque ele havia trabalhado antigamente, e que tinha brigado com o pessoal, da inteligência do Itagiba. [...] Quando o Serra assumiu o Ministério da Saúde, ele montou --com o pretexto de investigar laboratórios-- uma central de espionagem, que era formado por quem? É só você ver quem estava cadastrado. Era um agente do SNI, o "agente Jardim", que até pouco tempo estava no gabinete [de Itagiba na Câmara], um ex-delegado... Isso quem falou foi o próprio Onézimo.

Ele chegou nessa reunião [e disse]: "Pô, vocês estão atrasados, porque essa equipe está trabalhando há dois anos". "Fazendo o quê?" "Ah, eles estão levantando dossiê contra o pessoal, esse povo do Itagiba está levantando 300 dossiês contra pessoas do PMDB, e quem do PMDB não votasse com o PSDB, estão fazendo chantagem, estão chantageando". [...] E disse o seguinte: que tinha sido convidado, inclusive, para integrar esse grupo. "Então pra gente descobrir quem está com vocês, aí, é muito fácil, porque eu já trabalhei lá". Ele contou também que trabalhou --o que facilitaria [seu trabalho]-- que já tinha trabalhado no grupo de inteligência da campanha de Fernando Henrique em 1994.

Ele disse que esse grupo do Itagiba, depois de vasculhar a vida do Aécio Neves e da Dilma e não ter encontrado nada contra, eles estavam desesperados. E disse que tem uns 500 dossiês contra o pessoal do PMDB. Essa é a verdade.”

Nassif sugeriu recentemente que está havendo uma tentativa do jornal de recuperar a credibilidade jornalística. Tomara. Deve fazer parte desse movimento o juízo de que ignorar o que está acontecendo na internet é insustentável.

Já no Estadão, Dora Kramer, hoje, faz que não viu as informações que circulam na rede sobre o livro do repórter. E afirma:

“Se o PT tem informação relevante de interesse público a respeito, diga do que se trata.”

Mas, se o partido processa Serra pela acusação infundada quanto a Dilma ser responsável pelo dossiê, aí:

“Essa ação na Justiça é um gesto vazio e não ajuda a esclarecer coisa alguma.”

Ah, certo, a acusação do candidato tucano não foi “gesto vazio”, e ajudou a esclarecer muita coisa.

5 de junho de 2010

A cobertura da Folha sobre o “dossiê”

Sábado de manhã, me deparo com reportagem da Carta Capital intitulada “O dossiê do dossiê do dossiê…”. Pô, eu vinha preparando um post pro blogue chamado “Dossiê do dossiê”. Perdi o título, mas insisto, até porque minha abordagem vai ser um pouco diferente.

Na quinta, 3 de junho, Luiz Nassif publicou texto que esclareceu bastante os bastidores desse suposto dossiê contra Serra supostamente organizado pela campanha adversária supostamente por ordens da própria Dilma. Bem verossimilhante, o artigo diz mais ou menos o seguinte: a acusação parece ter sido uma maneira de o tucano defender-se preventivamente da divulgação de um livro que está sendo escrito pelo repórter Amaury Ribeiro Jr. sobre as privatizações da era FHC (quando mais?). E o pior é como a coisa teria surgido:

“Quando começou a disputa dentro do PSDB, pela indicação do candidato às eleições presidenciais, correram rumores de que Serra havia preparado um dossiê sobre a vida pessoal de seu adversário (no partido) Aécio Neves.

A banda mineira do PSDB resolveu se precaver. E recorreu ao Estado de Minas para que juntasse munição dissuasória contra Serra. O jornal incumbiu, então, seu jornalista Amaury Ribeiro Jr de levantar dados sobre Serra. Durante quase um ano Amaury se dedicou ao trabalho, inclusive com viagens à Europa, atrás de pistas.(…)

Nesse ínterim, cessou a guerra interna no PSDB e Amaury saiu do Estado de Minas e ficou com um vasto material na mão. Passou a trabalhar, então, em um livro, que já tem 14 capítulos, segundo informações que passou a amigos em Brasília.”

Na mesma quinta-feira, o jornalismo da Folha se ateve ao declaracionismo (a nova versão do criacionismo pelo verbo), e isso rendeu a manchete principal: Serra acusa Dilma de fazer dossiê; petista nega. Nesse dia seguiram-se vários quebra-paus, e o PT acabou decidindo processar Serra pela acusação. Gostei da troca de afagos entre o jornalista Ricardo Noblat e o presidente do PT, José Eduardo Dutra no Twitter:

“@BlogdoNoblat - Na versão que começou a circular, tem 110 páginas o dossiê contra Serra elaborado pelos novos aloprados do PT. 2:53 AM Jun 3

@ZéDutra 13 - Você sabe quem elaborou o tal dossie? Então diga. Ficar falando em "novos aloprados do PT" é desonestidade intelectual 9:41 AM Jun 3

@BlogdoNoblat - Eu sei, e o senhor sabe. E não me venha falar em desonestidade intelectual. Há companheiros do senhor que entendem disso melhor.

@ZéDutra 13 - Vc é um jornalista bem informado e deve saber a verdadeira origem desse suposto dossiê. Nâo queira jogá-lo no nosso colo.”

Ontem, sexta, a Folha apenas publicou a notícia sobre a representação do PT e divulgou alguns dados sobre o dossiê, ainda relacionando-o à campanha de Dilma. O jornal ignorou inteiramente o texto de Nassif, que comentou a omissão.

Apenas hoje as edições impressa e online mencionam o repórter Amaury Ribeiro Jr, em matéria com a seguinte manchete: “Jornalista e delegado são pivôs de intriga do dossiê”. Em vez de ligar o início de suas investigações ao PSDB mineiro, a Folha prefere apontar para o Estado de Minas, “próximo politicamente de Aécio”.

Seguem-se minhas questões.

1) Por que a Folha ignorou inteiramente o texto de Luiz Nassif, autor do furo?

Como se sabe, Nassif foi colunista do jornal e, se não me engano, membro do conselhor editorial. Saiu durante o governo Lula, meio que num clima de que teria perdido sua “imparcialidade”. Gostaria de ver o trecho do manual da Folha que diz ser proibido atribuir afirmações a ex-empregados.

Talvez então se tratasse de rigor editorial, da necessidade de primeiro apurar os fatos. Ora, aposto com qualquer um que a Folha de amanhã terá trocentas declarações que por si só viram notícias, de fontes muito mais suspeitas que Nassif.

Para justificar a repercussão de uma afirmação como a de Serra, de que Dilma era a principal responsável pelo tal dossiê, certamente se evocaria um dos pilares éticos da empresa: o direito do leitor à informação. Pouco importa se era apenas jogo de cena do candidato, a Folha seria como aquele seu amigo que nunca te esconderia nada, ou aquela tia que causa frisson em reuniões familiares por sua falta de papas na língua. Ao leitor cabe julgar o mérito da informação. O mesmo vale para invasão de privacidade, violação de sigilos bancário e telefônico, reprodução de buchichos dos corredores da política, etc. É claro, tudo isso é válido em caso de predomínio do interesse público, mas a questão é: quem julga o que deve ser informado e o que deve ser calado, e com que critérios?

Esse caso é até pouco grave, considerando que bem ou mal a Folha hoje deu algumas informações sobre o livro do jornalista, que, a partir de uma matéria da respeitabilíssima Veja, virou o “dossiê” da tal intriga. A essa altura, era inevitável. Mas se trata apenas de um exemplo entre mil.

Não nos enganemos: o direito do leitor à informação é o direito da empresa jornalística de controlar a informação. Com a internet, podem ter se ampliado as fontes, mas muito pouca gente lê blogues de política, seja por desinformação, seja por falta de acesso, seja porque, convenhamos, há coisas muito mais interessantes e bem escritas pra se ler nesta vida.

2) Por que a manchete de hoje enfatiza o papel do jornalista e do delegado?

A pergunta me parece importante porque há ao menos duas outras questões de muito mais valor jornalístico: se é verdade que Aécio e seu grupo político mandaram fazer um dossiê preventivo contra Serra; e o que o livro de Amaury Ribeiro Jr. traz de novo sobre as privatizações (ele não teria escrito tanto apenas pra recontar a história).

Existe ainda a questão do envolvimento do delegado Onézimo de Souza com o episódio da Lunus, que tirou Roseana Sarney do páreo e deixou campo aberto pra candidatura de Serra na campanha de 2002.

A ideia, suspeito, é levar um pouco mais adiante a história de que há novos “aloprados”, ou “neoaloprados”, como já se disse por aí (um rótulo assim, percebam, é extremamente eficaz). Baixada a poeira, tanto faz o que de fato aconteceu ou deixou de acontecer. Até outubro, veremos pulularem remissões a esses “fatos” de que a campanha de Dilma retoma as piores práticas do partido, o que aliás apenas revelaria sua faceta autoritária e o desrespeito geral desses stalinistas pelos princípios democráticos, como a legalidade e a liberdade de imprensa.

Bismarck é, se bem me lembro, o autor da célebre máxima segundo a qual as leis são como as salsichas: é melhor não saber como se fazem. O mesmo, alguém já disse, aplica-se às notícias. Outra afirmação notória sobre a legislação - “Aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei” – também poderia ser dita do jornalismo: seu exercício deve ser mais cuidadoso quando se trata de fuçar a vida dos adversários.

31 de maio de 2010

A temível “esquerdização” da política externa

A política externa talvez ganhe destaque nessas eleições. Como o governo Lula nessa área tem posições esquerdistas muito mais marcadas do que na política interna (por exemplo, quanto a Chávez), a oposição tenta fazer disso um trunfo, apostando nos “eu-tenho-medo” da vida. É o que Serra aparentemente faz com o discurso sobre o corpo mole da Bolívia no combate à cocaína, de quebra transformando a discordância política em cruzada anti-drogas.

Isso poderia até funcionar há algum tempo, mas hoje a história parece ser outra. É o que aponta um bom artigo de Marcos Coimbra na Carta Capital desta semana. Eis um trecho:

“Em vez de perceber qualquer problema na ‘esquerdização’ da política externa, a opinião pública vê a atuação do governo e, especialmente, de Lula nas relações internacionais como um de seus maiores trunfos. Nenhum presidente recebeu, antes dele, tanto destaque nesse campo.

Nas pesquisas qualitativas feitas atualmente, o que se encontra é uma sensação de orgulho do cidadão comum pelo que avalia ser um crescente reconhecimento internacional do Brasil, seu governo e sua economia. Predomina a visão de Lula como um presidente que busca e consegue acordos com outros países, favoráveis aos interesses nacionais. Simplesmente não se ouvem ecos do que a grande imprensa publica. Conciliação, bom senso, entendimento, afirmação nacional, é com palavras como essas que as pessoas caracterizam a política externa”.

Primeiro, foi Serrinha paz-e-amor, e Dilma continuou subindo nas pesquisas. Agora enfim aparece um tom mais oposicionista, e parecem escassas as chances de sucesso. Não é à toa que surge a ideia de decidir as eleições nos tribunais.

30 de maio de 2010

Serra: uma charge, dois conselhos

Do sempre imperdível Angeli, na Folha de hoje:

Do twitter de Celso R. de Barros:
“Conselho aos serristas (1): deixem o assunto Bolívia morrer. Não justifiquem, não prolonguem. Mudem de assunto.”
“Conselho aos serristas (2): usem o Reinaldo como o George Constanza de vocês. O que o gut feeling dele sugerir, façam o contrário.”
“Os conselhos são de coração. Mesmo. Sem sacanagem.”

27 de maio de 2010

A propaganda e os democratas programáticos

Acabo de ver o programa “partidário” do DEM, dedicado a divulgar o discurso de lançamento da candidatura de Serra. A campanha eleitoral, ao menos legalmente, ainda não começou. E propagandas assim, pela lei que regulamenta os partidos, deveriam servir para difundir programas partidários e a posição do partido em relação a “temas político-comunitários”, atividades relacionadas ao programa e - isto entrou no ano passado - promover e difundir a participação política feminina. Daí ser vedada “a divulgação de propaganda de candidatos a cargos eletivos e a defesa de interesses pessoais ou de outros partidos”. Por conta da destinação e da proibição, esse uso distorcido  da propaganda, bastante difundido, vive sendo questionado, seja por adversários, seja pelo Ministério Público. Parece que o PT já se movimenta para recorrer à Justiça quanto a esse trailer do que será a campanha de Serra.

Claramente, é questão de cálculo de benefícios: se houver condenação, perdem-se  somente os direitos de transmissão da propaganda partidária, e apenas no… semestre seguinte. Nesses meses pré-eleitorais, quem se preocupa com não poder divulgar questões programáticas, e ainda por cima no semestre que vem?

Recentemente o PT também usou de sua propaganda para promover Dilma. Isso, claro, gerou as mais apaixonadas e insuspeitas defesas de nossas instituições democráticas, que Lula e seu partido insistiriam em desrespeitar. Juntem-se aí as multas aplicadas ao presidente pelo TSE, e pronto: os mais animados já falam até em tirar a candidata do jogo pelos tribunais. Serra era então aquele democrata que teria demorado a entrar na “corrida eleitoral” para não misturar seu papel de governador com o de candidato. Um estadista. Enquanto Lula zombaria dos tribunais e do princípio da igualdade perante a lei, numa imagem construída por meio de factóides e sem análise alguma do que marca a relação de seu governo com o Judiciário e o Ministério Público. Quase eu ia dizer aqui: a partir de agora, será preciso mais cara de pau para continuar esse discurso. Me arrependo: já era necessária toda cara de pau do mundo muito antes disso. Reinaldo Azevedo elogiou o programa do DEM, preocupando-se com sua eficiência apenas, e criticou a “histeria legalista seletiva” do pessoal do PT. Quem quiser que entenda.

Não quero apenas dizer: “Ah, os demo-tucanos falavam do PT, e olha eles aí fazendo a mesma coisa”. Esse tipo de argumento tem algo de deprimente. Se não é para acreditar que existem diferenças entre uns e outros, melhor seria anular o voto – e tentar emigração para a Suécia, Nova Zelândia, sei lá.

Até porque eles não fizeram a mesma coisa, fizeram melhor. Ironicamente, um dos blocos da fala de Serra no programa termina com ele dizendo algo como “A lei deve ser igual para todos! Ninguém está acima da lei no Brasil!”, isso numa propaganda em que se zombava da lei por cálculo político. Que requinte, hein?

Enfim, cai de vez a máscara, e a propaganda que vi hoje apenas mostra como ela era insustentável.

*Pequeno adendo (adicionado em 28/5/10)

Hoje vejo um post do blog de Josias de Souza tratar da propaganda do DEM. Em determinado momento, o colunista da Folha comenta:

“Na sucessão de 2010, segundo jurisprudência criada pelo PT, propaganda partidária tornou-se peça de campanha.”

Falta memória ou é má vontade? Há tempos que os partidos fazem esse uso da propaganda gratuita. Fico só em dois exemplos.

Em 22 de maio de 2007, o TRE de São Paulo cassou um minuto na propaganda partidária do PSDB por promoção pessoal do candidato à presidência Geraldo Alckmin em 2006.

Já o DEM teve, em 27 de setembro de 2007, 18 minutos de sua propaganda cassados pelo mesmo TRE-SP. O motivo? As inserções do partido promoviam a candidatura de Gilberto Kassab às eleições.

10 de maio de 2010

Mais do mesmo

Que a oposição anda meio sem discurso, qualquer pessoa que freqüente a blogosfera já percebeu. A última de Serra é ótima. Em entrevista à rádio CBN, o candidato do PSDB se definiu “de esquerda”, quem sabe seguindo uma deixa de Caetano Veloso, que, numa sacada genial, viu o que ninguém mais foi capaz.

Talvez seja essa a razão porque algumas das críticas que se tem feito a Dilma tenha esse gosto de comida requentada. (E, percebam, não ignoro que comida requentada tem lá o seu sabor muito peculiar. Eu mesmo tenho uma certa predileção por feijoada dormida, mas isso é outro assunto.)

Lê-se hoje, por exemplo, no blog de Josias de Sousa que

“A oposição pergunta: Que feitos produziu a preferida de Lula para justificar a promoção?

A mesma oposição responde: Dilma ainda não deu ao país nenhuma realização palpável.”

Ignoremos o fato de que o respeitável jornalista encarna tanto a voz que pergunta quanto a que responde. É só mais um exemplo do papel que cabe a parte da mídia nessas eleições. Mais interessante, ao menos para o que pretendo agora, é levantar uma outra questão: a da inexperiência política da candidata do PT – ou do presidente Lula, como se repete a torto e a direito por aí.

Ao ler o blog do Josias, hoje pela manhã, me lembrei imediatamente de Patrícia Daniela, uma amiga do segundo grau. Aqueles eram outros tempos, quando ainda me dava ao trabalho de fazer campanha política abertamente. Pois bem, num desses momentos pré-eleitorais, em meados de 2002, perguntei a Paty o porquê de tamanha resistência a votar em Lula, ao que ela me respondeu: não votaria no então candidato do PT simplesmente porque ela nunca o havia visto governar, portanto não tinha como avaliá-lo.

O argumento não deixa de ter sua validade, mas ele tem lá os seus problemas. Primeiro, havia, sim, uma resistência ao que ela via como a empáfia de um metalúrgico sem formação acadêmica de querer governar a nação. Segundo, e isso eu me lembro de ter falado com ela, se experiência política fosse tão determinante assim, talvez devêssemos votar em ACM, cujo currículo eleitoral era bastante consistente.

Oito anos depois, com todos os erros e acertos de seu mandato, Lula deu provas suficientes de que, embora a experiência política seja importante, não é ela o que determina o sucesso ou o fracasso de um governo. Meus conhecimentos dos meandros da política são irrisórios, é verdade, mas me parece que esse culto à figura do presidente é um tanto pernicioso. É melhor eu me fazer mais claro: não estou dizendo que qualquer um pode ser presidente da república. Estou dizendo que, não sendo um ditador, ninguém governa sozinho. (Talvez nem esse o faça, mas pelo menos encarna a figura do faz-tudo.) Tão importante quanto aquele que é o primeiro mandatário da nação, é a equipe que ele convoca para assessorá-lo, para pôr em andamento um programa político sólido. E todos sabemos que foi exatamente nesse ponto em que o governo Lula mais acertou e mais fracassou.

Assim, meu grande medo em relação a um futuro governo Dilma tem pouco a ver com sua experiência, mas com o espaço que o PMDB dos Temers, dos Calheiros e dos Sarneys vai ter ao seu dispor. Do mesmo modo, temo o que seria um governo Serra, que conta com o apoio de um partido tão nefasto como o ARENA, perdão, PFL, desculpa, DEM. Mas isso não parece incomodar ninguém mais.

As críticas requentas, contudo, não param por aí. Uma outra que me tem tirado mais a paciência do que o meio campo do Vitória é a da radicalização do PT. Em fevereiro desse ano, a Veja levantou a bola:

“Lula logrou conter o ímpeto dos radicais, dando-lhes cargos periféricos e gordas verbas em troca de obediência canina. Dilma, se eleita, conseguirá?”

É impressionante. Quem se lembra da capa da mesma revista, publicada em 23 de outubro de 2002?

Veja

Antes era o preço pelo silêncio. Hoje, a inabilidade política de Dilma para controlar a radicalidade do partido. Oito anos de diferença, e a retórica do medo persiste. Uma idéia infundada, que alimenta o discursos de alguns dos setores mais conservadores do país. Me refiro, mais especificamente, a Reinaldo de Azevedo, com muito mais leitores, e a Walter, companheiro de um outro blogue, que não se cansa de nos mostrar as mazelas de um regime esquerdopata. E, aqui, tudo, absolutamente tudo o que o governo faz nada mais é do que uma manifestação de sua tendência stalinista e antidemocrática. Tendência essa que apenas alguns poucos eleitos têm a capacidade de perceber e a obrigação de nos fazer ver.

Pois bem, na ausência de um discurso que lhe seja próprio – em parte porque a pseudoesquerda, nas palavras sempre sábias de Josias de Sousa, lhe roubou uma parte considerável do seu programa político –, a direita brasileira tem requentado algumas das suas críticas a Lula. Espero, sinceramente, que o alcance dessas críticas seja o mesmo de 2002: a mesma lata de lixo de onde elas vieram.