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29 de outubro de 2010

Uma idiotice + uma idiotice + uma idiotice + … = ?

Futorologia, já dizia Celso de Barros, é um exercício fundamental pra qualquer eleitor: no fundo, a gente acaba escolhendo um candidato ao invés do outro, porque criamos um futuro no qual seus feitos serão mais proveitosos, individual ou socialmente, do que os do seu adversário. Mas futurologia é uma coisa, o que este vídeo faz é outra completamente diferente.

28 de outubro de 2010

O peso de uma bolinha de papel

É com muito pesar, mas eu devo dizer que discordo de Felipe, uma das pessoas mais sensatas que eu conheço. (Se não a mais. Quer dizer, talvez a única.) Pois bem, já tinha lido, não me lembro onde, algum comentário dele, que andava meio impressionado com a proporção do caso da bolinha de papel que acertou a cabeça de Serra no Rio de Janeiro. Numa das nossas trocas de email, ele voltou ao assunto: “Impressionante é que isso tenha virado objeto de debate.”

Pois eu discordo, meu caro. Agradeço aos céus – está na moda a gente fazer a média com a Igreja – que isso tenha ocupado o espaço que ocupou, pois eu acho que ele ilustra perfeitamente o que tenho sido a cobertura política da nossa mídia nativa desde 1989 – não que eu tenha algum conhecimento mais aprofundado sobre o assunto, são apenas impressões – e sua incapacidade de acompanhar as mudanças do país e dos meios de comunicação.

A escolha de 1989 é óbvia. Hoje é mais do que conhecido o papel que as grandes corporações midiáticas – a Globo em particular – tiveram no resultado da primeira eleição direta depois de mais de duas décadas de ditadura: para ficarmos em dois exemplos, a atribuição do seqüestro do empresário Abílio Diniz a militantes do PT e a edição tendenciosa que o JN mostrou do último debate do segundo turno.

Não sei se exagero ao dizer que as eleições de 89 foram mais um passo no lento, gradual e seguro processo de abertura política: primeiro, um colégio eleitoral elegeu, em 1985, por voto indireto, Tancredo Neves presidente da república. Depois, no que deveria ter sido um processo democrático e pluripartidário, a vontade popular – uma coisa que sempre foi vista com desconfiança, da qual o “Ficha-limpa” é só mais um exemplo (lincaria aqui o excelente texto de Wilson Gomes sobre o assunto, mas como o blogue dele só vive raqueado, paciência) – foi novamente posta em suspenso: agora não era mais a arbitrariedade de um regime de exceção que ditava as regras do jogo, mas , sim, os interesses de uma minoria que, como um pai zeloso, estava certa de que somente ela sabia o que é melhor para o país. (E parece ainda estar.)

Mais de vinte anos se passaram, e os grandes meios de comunicação continuam tratando seus consumidores como se nós fôssemos Homer Simpson. Uma comparação duplamente ofensiva: primeiro, porque não vejo como Homer pode servir de modelo de qualquer coisa para alguém; segundo, porque, ao menosprezar nossa capacidade interpretativa, William Bonner tenta nos vestir uma carapuça que já vem mal-ajambrada desde a confecção: seríamos, segundo o âncora do JN, “pais de família, trabalhadores, protetores, conservadores, sem curso superior, que assistem à TV depois da jornada de trabalho.”

O problema é que o tempo do pensamento único que se travestia de consenso parece ter seus dias contados. (Eu acho que a falta de rumo da campanha de Serra tem muito a ver com isso. Até hoje os tucanos não entendem porque lhes falta adesão se eles são obviamente tão melhores.)

E o caso da bolinha de papel, nesse sentido, é exemplar. Primeiro, outros meios de comunicação já conseguem uma certa autonomia em relação à pauta política da Globo, como foi o caso da matéria do SBT. Segundo, parece haver se invertido a lógica da comunicação, de acordo com a qual os grandes meios decidem o que e o que não é notícia. Em questão de horas uma informação – falsa ou não – se espalha com uma tal facilidade por uma ferramenta como o Tuíter que a Globo se vê na obrigação de “prestar contas” das informações que veicula. (Uma tag como #globomente chegou aos primeiros lugares dentre os trend topics internacionais, o que nenhum meio de comunicação pode mais se dar ao luxo de ignorar.) Terceiro, a facilidade de acesso a equipamentos eletrônicos faz com que qualquer internauta mais interessado no assunto possa por à prova o que foi veiculado, como foi o caso do professor da UFSM, que desconstruiu Ricardo Molina, o especialista do JN.

Acontece que, ao mesmo tempo em que cresce a disponibilidade e o interesse pela pluralidade de pontos de vista, nossa mídia nativa continua acorrentada à velha idéia de infalibilidade do jornalismo. (Uma idéia sem a qual, é bom que se diga, os meios de comunicação ficariam mais vulneráveis à noção de que toda informação é politicamente enviesada, o que poria por terra a pretensa imparcialidade sobre qual assentam boa parte do seu capital simbólico.) No mesmo dia em que saiu a notícia de que o Brasil atingiu índices de desemprego inacreditáveis – Idelber fala que é o menor da história da República –, a Globo se viu obrigada, por causa de um bando de desocupados, a dedicar sete minutos do seu principal telejornal para tentar provar que ainda é a única detentora da capacidade de informar a verdade dos fatos.

Contudo, ao que parece, fizeram uma bolinha de papel com a folha do calendário que marcava eternamente 1989. Protejam suas cabeças.

5 de setembro de 2010

Resumo de uma Folha de domingo

Meu resuminho do que li da edição de hoje da Folha:

A gente tá doido pros tucanos tomarem logo de volta o poder da mão desses aparelhistas contumazes. Parece que já era, mas mesmo assim ainda é tempo de criar factoidilmas. Se não der, quem sabe vai pintar um novo PSDB pra nos redimir?

Vejamos passo a passo.

A gente tá doido pros tucanos tomarem logo de volta o poder (…) - Isso pode ser lido no editorial O aviso de Lula, que apela para o argumento furado da necessidade de alternância (vale lembrar, é preciso manter a fama de imparcial):

“Os artifícios retóricos e os argumentos que constavam do artigo de Lula poderiam, quase que integralmente, ser agora esgrimidos contra seu próprio governo.
De fato, poucas vezes na história republicana o fisiologismo foi tão explícito e subordinou-se tanto a máquina pública ao proveito partidário. Por certo, tornaram-se ainda mais caudalosos os rios de dinheiro vertidos na candidatura continuísta -e mais sofisticadas as técnicas de comunicação para ‘ludibriar o eleitorado’.
Utilizou-as Lula, com sua vocação de animador de plateias, para inventar a herdeira que, sem nenhuma experiência eleitoral, poderá ocupar seu trono -ou melhor, a cadeira presidencial. As recorrentes comparações com a história mexicana, que ora voltam à cena, podem ser úteis nos torneios verbais, mas não vão muito além disso. Por mais longos que possam ser os ciclos de grupos políticos no poder, as democracias evoluídas (o que não era o caso do México) acabam sempre por experimentar uma saudável alternância administrativa.”

Então viu, a comparação com o México só não vale porque aqui, inevitavelmente, teremos uma “saudável alternância”.

“(…) da mão desses aparelhistas contumazes” – Quem garante é Cantanhêde, que apresentou a brilhante prova de que os vazamentos estão ligados à campanha de Dilma, e seria um absurdo pensar em outras possibilidades:

“Quem faz o serviço sujo para a campanha petista na internet já tem um culpado: Aécio! É ridículo, como se esses tucanos e esse Aécio é que vivessem fazendo dossiês e usando o aparelho de Estado para violar o sigilo dos outros.”

Entendi. Quem “vive fazendo” é que está fazendo. Tirando a consistência lógica da forma do argumento (X vive fazendo Y; Y aconteceu; logo, X fez Y), a premissa se baseia em parte no factoide do dossiê, que data de junho, e sobre o qual já falei minhas besteiras. Não vejo porque uma das hipóteses em aberto não seja a de que houve participação do PSDB mineiro.

Parece que já era, mas mesmo assim ainda é tempo de criar factoidilmas – Coisa mais furada foi a manchete da edição de Domingo: “Consumidor de luz pagou R$1 bi por falha de Dilma”. Em primeiro lugar, a matéria não estabelece claramente essa relação segundo a qual o consumidor teria pagado, e o valor nem chegou a isso (se R$11 mi não é nada pra Folha, dá pra mim). Em segundo, o próprio texto, claro que sem nenhum destaque, lembra que o tal “erro” é da legislação do governo anterior:

Na época, um dos critérios para a concessão do benefício era o consumo residencial. Os técnicos do tribunal, contudo, concluíram que consumidores que gastavam pouco (até 80 kWh por mês), não eram, necessariamente, pobres -caso de donos de casas de veraneio.
Por outro lado, consumidores de fato pobres ficavam de fora do desconto, pois podiam registrar consumo acima de 80 kWh/mês, devido ao alto número de moradores sob um mesmo teto.
Ou seja, consumidores pobres subsidiaram ricos.
O tribunal propôs, então, a reformulação dos critérios do benefício, criado em abril de 2002, último ano do governo FHC.

Uma questão importante, mas nem atual nem bem aprofundada, justificada apenas porque contradiria a imagem de boa administradora da candidata. E vai parar na manchete da edição de domingo…

Se não der, quem sabe vai pintar um novo PSDB pra nos redimir? – Essa ficou por parte de uma matéria sobre PSDB:

“O PSDB terá que ser reformulado, independentemente do resultado das eleições. Essa é a opinião consensual de fundadores tucanos ouvidos pela Folha e que seguem filiados ao partido 22 anos depois de seu nascimento.
Ao mesmo tempo em que elogiam José Serra como candidato à Presidência, os ouvidos concordam que o partido perdeu a essência, curtida na social-democracia europeia.
Hoje, dos 109 fundadores, apenas Fernando Henrique Cardoso e Pimenta da Veiga, além de Serra, ainda compõem o conselho político nacional do partido.
Existe consenso entre os entrevistados de que a perspectiva de ver seu principal antagonista no cenário político, o PT, chegar a pelo menos 12 anos seguidos no poder é fruto de erros cometidos pelos próprios tucanos.”

O final da citação é brilhante: quer dizer que o único motivo capaz de ter feito os tucanos perderem a presidência foram seus próprios erros? Nunca uma admissão do tipo foi tão pouco humilde. Me lembra trecho da letra de Dom de Iludir, de Caetano “Você sabe explicar / Você sabe entender / Tudo bem / Você está, você é / Você faz, você quer / Você tem”. Se começarem se reformulando assim, estarão seguindo os passos do DEM: vão mudar a roupa, mas não a alma.

16 de agosto de 2010

Post sobre a cegueira

Pois é, os emails trocados entre Felipe e Renato só provam o quanto eu estou correto. Este blog só funciona propriamente quando há um certo estímulo, que desta vez veio de um comentário que Renato fez a partir do editorial da Folha do último sábado, dia 14, e de um textinho de Eliane Cantanhêde de ontem. É, meu caro, parece mesmo que a ala paulista da intelectualidade peessedebista – uma grande parte dos colunistas, editores e donos de jornais em São Paulo, como você bem disse – vai imolar Aécio Neves no altar dos culpados pela derrota eleitoral que começa a se vislumbrar, mas que ainda não está tão certa quanto aqueles mais apressados querem fazer crer. (Renato vai um pouquinho mais longe, levantando a bola de um certo “paulistanismo por poder”, mas aí eu deixo que ele mesmo corte. Fica o convite.)

Eu, de minha parte, me interessei deveras pelo textinho da Cantanhêde (com artigo e tudo), uma pecinha miúda – seis paragrafozinhos com frases curtinhas, sem maiores desenvolvimentos, bem tipicamente jornalístico –, mas cujas implicações, essas sim, me parecem da maior importância.

O assunto: o banho de água fria que a última pesquisa do Datafolha – o instituto que demorou, mas deu o braço a torcer frente à ascensão de Dilma – deu na cúpula do PSDB. Este textinho se movimenta entre um derrotismo, que se pergunta qual será o futuro da oposição, e uma certa perplexidade entre o que fazer para evitar que uma era de trevas se instale definitivamente sobre o Brasil. (É bom que se diga que a ênfase dramática é minha. Nossa colunista é bem mais contida.) E é aí que ele fica interessante.

Cantanhêde escreve:
“A dúvida é se o partido resiste à eternidade de 20 anos na oposição – 8 de Lula, 4 de Dilma e mais 8 de Lula a partir de 2014.”
Engraçado o questionamento, que reforça ao menos dois factóides. Primeiro, que Dilma não passa mesmo de uma marionete de Lula, uma espécie de tampão pseudo-democrático, cuja única função é perpetuar o atual presidente e o petismo no poder sem que haja uma ruptura tão radical quanto a que aconteceu na execrável e autoritária Venezuela de Hugo Chávez. É, como diz Reinaldo Azevedo, o lobo da ditadura numa pele de cordeiro democrática.

O segundo é um desdobramento possível do primeiro – pelo menos nas cabeças neuróticas de uns e mal-intencionadas de outros: os eternos 20 anos do PT à frente da República poderiam significar o esmagamento da oposição, instaurando, assim, por via democrática, um governo de partido único, bem ao gosto dos stalinistas que compõem a esquerda brasileira. Novamente, o fantasma que paira sobre o imaginário de uma parcela da elite nacional é o de que Lula seja nada mais nada menos do que uma versão paz-e-amor do bolivarianismo chavista.

E, para Cantanhêde, não resta dúvida de quem é a culpa deste futuro tão incerto quanto macabro: ela pertence, por um lado, a Aécio, que “não apostou na vitória de Serra, convencido de que manter Minas seria suficiente para alavancar sua candidatura à Presidência na próxima eleição.” Por outro, a culpa de uma possível derrota de um político tão competente quanto Serra para um poste como Dilma só pode ser imputada a um imenso rolo compressor: “Lula, os ministérios, a máquina pública, a ramificação do PMDB e a maior coligação partidária. Não bastasse, vai ter, a partir da terça, o maior tempo na TV e no rádio.”

Felipe é que está certo: tudo não passa de inépcia e presunção da colunista da Folha, para qual, se se confirmarem as pesquisas, tudo o que acontecer de mal ao PSDB – e ao Brasil, logicamente – não é computado como desdobramento da incompetência do partido tanto nos oito anos em que esteve no poder, quanto nos outros tantos em que não soube fazer oposição.

O que Cantanhêde e aqueles que a lêem não conseguem ver é que os possíveis 20 anos do PT à frente do país não significam o fim da oposição e, conseqüentemente, um assalto bolchevique à democracia brasileira. Eles significariam, isso sim, o seu exato oposto: diante de mais uma derrota, a oposição vai ter que se reinventar, corrigir seu discurso, buscar novas lideranças – os Júnior e os Netos que povoam o congresso claramente não dão conta da coisa –, reescrever sua agenda, repensar suas prioridades e, talvez o que seja mais importante, tomar consciência de que precisa ampliar o seu poder de comunicação. Está claro que só os leitores da Folha não são mais capazes de eleger um Presidente da República.

5 de junho de 2010

A cobertura da Folha sobre o “dossiê”

Sábado de manhã, me deparo com reportagem da Carta Capital intitulada “O dossiê do dossiê do dossiê…”. Pô, eu vinha preparando um post pro blogue chamado “Dossiê do dossiê”. Perdi o título, mas insisto, até porque minha abordagem vai ser um pouco diferente.

Na quinta, 3 de junho, Luiz Nassif publicou texto que esclareceu bastante os bastidores desse suposto dossiê contra Serra supostamente organizado pela campanha adversária supostamente por ordens da própria Dilma. Bem verossimilhante, o artigo diz mais ou menos o seguinte: a acusação parece ter sido uma maneira de o tucano defender-se preventivamente da divulgação de um livro que está sendo escrito pelo repórter Amaury Ribeiro Jr. sobre as privatizações da era FHC (quando mais?). E o pior é como a coisa teria surgido:

“Quando começou a disputa dentro do PSDB, pela indicação do candidato às eleições presidenciais, correram rumores de que Serra havia preparado um dossiê sobre a vida pessoal de seu adversário (no partido) Aécio Neves.

A banda mineira do PSDB resolveu se precaver. E recorreu ao Estado de Minas para que juntasse munição dissuasória contra Serra. O jornal incumbiu, então, seu jornalista Amaury Ribeiro Jr de levantar dados sobre Serra. Durante quase um ano Amaury se dedicou ao trabalho, inclusive com viagens à Europa, atrás de pistas.(…)

Nesse ínterim, cessou a guerra interna no PSDB e Amaury saiu do Estado de Minas e ficou com um vasto material na mão. Passou a trabalhar, então, em um livro, que já tem 14 capítulos, segundo informações que passou a amigos em Brasília.”

Na mesma quinta-feira, o jornalismo da Folha se ateve ao declaracionismo (a nova versão do criacionismo pelo verbo), e isso rendeu a manchete principal: Serra acusa Dilma de fazer dossiê; petista nega. Nesse dia seguiram-se vários quebra-paus, e o PT acabou decidindo processar Serra pela acusação. Gostei da troca de afagos entre o jornalista Ricardo Noblat e o presidente do PT, José Eduardo Dutra no Twitter:

“@BlogdoNoblat - Na versão que começou a circular, tem 110 páginas o dossiê contra Serra elaborado pelos novos aloprados do PT. 2:53 AM Jun 3

@ZéDutra 13 - Você sabe quem elaborou o tal dossie? Então diga. Ficar falando em "novos aloprados do PT" é desonestidade intelectual 9:41 AM Jun 3

@BlogdoNoblat - Eu sei, e o senhor sabe. E não me venha falar em desonestidade intelectual. Há companheiros do senhor que entendem disso melhor.

@ZéDutra 13 - Vc é um jornalista bem informado e deve saber a verdadeira origem desse suposto dossiê. Nâo queira jogá-lo no nosso colo.”

Ontem, sexta, a Folha apenas publicou a notícia sobre a representação do PT e divulgou alguns dados sobre o dossiê, ainda relacionando-o à campanha de Dilma. O jornal ignorou inteiramente o texto de Nassif, que comentou a omissão.

Apenas hoje as edições impressa e online mencionam o repórter Amaury Ribeiro Jr, em matéria com a seguinte manchete: “Jornalista e delegado são pivôs de intriga do dossiê”. Em vez de ligar o início de suas investigações ao PSDB mineiro, a Folha prefere apontar para o Estado de Minas, “próximo politicamente de Aécio”.

Seguem-se minhas questões.

1) Por que a Folha ignorou inteiramente o texto de Luiz Nassif, autor do furo?

Como se sabe, Nassif foi colunista do jornal e, se não me engano, membro do conselhor editorial. Saiu durante o governo Lula, meio que num clima de que teria perdido sua “imparcialidade”. Gostaria de ver o trecho do manual da Folha que diz ser proibido atribuir afirmações a ex-empregados.

Talvez então se tratasse de rigor editorial, da necessidade de primeiro apurar os fatos. Ora, aposto com qualquer um que a Folha de amanhã terá trocentas declarações que por si só viram notícias, de fontes muito mais suspeitas que Nassif.

Para justificar a repercussão de uma afirmação como a de Serra, de que Dilma era a principal responsável pelo tal dossiê, certamente se evocaria um dos pilares éticos da empresa: o direito do leitor à informação. Pouco importa se era apenas jogo de cena do candidato, a Folha seria como aquele seu amigo que nunca te esconderia nada, ou aquela tia que causa frisson em reuniões familiares por sua falta de papas na língua. Ao leitor cabe julgar o mérito da informação. O mesmo vale para invasão de privacidade, violação de sigilos bancário e telefônico, reprodução de buchichos dos corredores da política, etc. É claro, tudo isso é válido em caso de predomínio do interesse público, mas a questão é: quem julga o que deve ser informado e o que deve ser calado, e com que critérios?

Esse caso é até pouco grave, considerando que bem ou mal a Folha hoje deu algumas informações sobre o livro do jornalista, que, a partir de uma matéria da respeitabilíssima Veja, virou o “dossiê” da tal intriga. A essa altura, era inevitável. Mas se trata apenas de um exemplo entre mil.

Não nos enganemos: o direito do leitor à informação é o direito da empresa jornalística de controlar a informação. Com a internet, podem ter se ampliado as fontes, mas muito pouca gente lê blogues de política, seja por desinformação, seja por falta de acesso, seja porque, convenhamos, há coisas muito mais interessantes e bem escritas pra se ler nesta vida.

2) Por que a manchete de hoje enfatiza o papel do jornalista e do delegado?

A pergunta me parece importante porque há ao menos duas outras questões de muito mais valor jornalístico: se é verdade que Aécio e seu grupo político mandaram fazer um dossiê preventivo contra Serra; e o que o livro de Amaury Ribeiro Jr. traz de novo sobre as privatizações (ele não teria escrito tanto apenas pra recontar a história).

Existe ainda a questão do envolvimento do delegado Onézimo de Souza com o episódio da Lunus, que tirou Roseana Sarney do páreo e deixou campo aberto pra candidatura de Serra na campanha de 2002.

A ideia, suspeito, é levar um pouco mais adiante a história de que há novos “aloprados”, ou “neoaloprados”, como já se disse por aí (um rótulo assim, percebam, é extremamente eficaz). Baixada a poeira, tanto faz o que de fato aconteceu ou deixou de acontecer. Até outubro, veremos pulularem remissões a esses “fatos” de que a campanha de Dilma retoma as piores práticas do partido, o que aliás apenas revelaria sua faceta autoritária e o desrespeito geral desses stalinistas pelos princípios democráticos, como a legalidade e a liberdade de imprensa.

Bismarck é, se bem me lembro, o autor da célebre máxima segundo a qual as leis são como as salsichas: é melhor não saber como se fazem. O mesmo, alguém já disse, aplica-se às notícias. Outra afirmação notória sobre a legislação - “Aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei” – também poderia ser dita do jornalismo: seu exercício deve ser mais cuidadoso quando se trata de fuçar a vida dos adversários.