Futorologia, já dizia Celso de Barros, é um exercício fundamental pra qualquer eleitor: no fundo, a gente acaba escolhendo um candidato ao invés do outro, porque criamos um futuro no qual seus feitos serão mais proveitosos, individual ou socialmente, do que os do seu adversário. Mas futurologia é uma coisa, o que este vídeo faz é outra completamente diferente.
29 de outubro de 2010
28 de outubro de 2010
O peso de uma bolinha de papel
5 de setembro de 2010
Resumo de uma Folha de domingo
Meu resuminho do que li da edição de hoje da Folha:
A gente tá doido pros tucanos tomarem logo de volta o poder da mão desses aparelhistas contumazes. Parece que já era, mas mesmo assim ainda é tempo de criar factoidilmas. Se não der, quem sabe vai pintar um novo PSDB pra nos redimir?
Vejamos passo a passo.
A gente tá doido pros tucanos tomarem logo de volta o poder (…) - Isso pode ser lido no editorial O aviso de Lula, que apela para o argumento furado da necessidade de alternância (vale lembrar, é preciso manter a fama de imparcial):
“Os artifícios retóricos e os argumentos que constavam do artigo de Lula poderiam, quase que integralmente, ser agora esgrimidos contra seu próprio governo.
De fato, poucas vezes na história republicana o fisiologismo foi tão explícito e subordinou-se tanto a máquina pública ao proveito partidário. Por certo, tornaram-se ainda mais caudalosos os rios de dinheiro vertidos na candidatura continuísta -e mais sofisticadas as técnicas de comunicação para ‘ludibriar o eleitorado’.
Utilizou-as Lula, com sua vocação de animador de plateias, para inventar a herdeira que, sem nenhuma experiência eleitoral, poderá ocupar seu trono -ou melhor, a cadeira presidencial. As recorrentes comparações com a história mexicana, que ora voltam à cena, podem ser úteis nos torneios verbais, mas não vão muito além disso. Por mais longos que possam ser os ciclos de grupos políticos no poder, as democracias evoluídas (o que não era o caso do México) acabam sempre por experimentar uma saudável alternância administrativa.”
Então viu, a comparação com o México só não vale porque aqui, inevitavelmente, teremos uma “saudável alternância”.
“(…) da mão desses aparelhistas contumazes” – Quem garante é Cantanhêde, que apresentou a brilhante prova de que os vazamentos estão ligados à campanha de Dilma, e seria um absurdo pensar em outras possibilidades:
“Quem faz o serviço sujo para a campanha petista na internet já tem um culpado: Aécio! É ridículo, como se esses tucanos e esse Aécio é que vivessem fazendo dossiês e usando o aparelho de Estado para violar o sigilo dos outros.”
Entendi. Quem “vive fazendo” é que está fazendo. Tirando a consistência lógica da forma do argumento (X vive fazendo Y; Y aconteceu; logo, X fez Y), a premissa se baseia em parte no factoide do dossiê, que data de junho, e sobre o qual já falei minhas besteiras. Não vejo porque uma das hipóteses em aberto não seja a de que houve participação do PSDB mineiro.
Parece que já era, mas mesmo assim ainda é tempo de criar factoidilmas – Coisa mais furada foi a manchete da edição de Domingo: “Consumidor de luz pagou R$1 bi por falha de Dilma”. Em primeiro lugar, a matéria não estabelece claramente essa relação segundo a qual o consumidor teria pagado, e o valor nem chegou a isso (se R$11 mi não é nada pra Folha, dá pra mim). Em segundo, o próprio texto, claro que sem nenhum destaque, lembra que o tal “erro” é da legislação do governo anterior:
Na época, um dos critérios para a concessão do benefício era o consumo residencial. Os técnicos do tribunal, contudo, concluíram que consumidores que gastavam pouco (até 80 kWh por mês), não eram, necessariamente, pobres -caso de donos de casas de veraneio.
Por outro lado, consumidores de fato pobres ficavam de fora do desconto, pois podiam registrar consumo acima de 80 kWh/mês, devido ao alto número de moradores sob um mesmo teto.
Ou seja, consumidores pobres subsidiaram ricos.
O tribunal propôs, então, a reformulação dos critérios do benefício, criado em abril de 2002, último ano do governo FHC.
Uma questão importante, mas nem atual nem bem aprofundada, justificada apenas porque contradiria a imagem de boa administradora da candidata. E vai parar na manchete da edição de domingo…
Se não der, quem sabe vai pintar um novo PSDB pra nos redimir? – Essa ficou por parte de uma matéria sobre PSDB:
“O PSDB terá que ser reformulado, independentemente do resultado das eleições. Essa é a opinião consensual de fundadores tucanos ouvidos pela Folha e que seguem filiados ao partido 22 anos depois de seu nascimento.
Ao mesmo tempo em que elogiam José Serra como candidato à Presidência, os ouvidos concordam que o partido perdeu a essência, curtida na social-democracia europeia.
Hoje, dos 109 fundadores, apenas Fernando Henrique Cardoso e Pimenta da Veiga, além de Serra, ainda compõem o conselho político nacional do partido.
Existe consenso entre os entrevistados de que a perspectiva de ver seu principal antagonista no cenário político, o PT, chegar a pelo menos 12 anos seguidos no poder é fruto de erros cometidos pelos próprios tucanos.”
O final da citação é brilhante: quer dizer que o único motivo capaz de ter feito os tucanos perderem a presidência foram seus próprios erros? Nunca uma admissão do tipo foi tão pouco humilde. Me lembra trecho da letra de Dom de Iludir, de Caetano “Você sabe explicar / Você sabe entender / Tudo bem / Você está, você é / Você faz, você quer / Você tem”. Se começarem se reformulando assim, estarão seguindo os passos do DEM: vão mudar a roupa, mas não a alma.
16 de agosto de 2010
Post sobre a cegueira
“A dúvida é se o partido resiste à eternidade de 20 anos na oposição – 8 de Lula, 4 de Dilma e mais 8 de Lula a partir de 2014.”
5 de junho de 2010
A cobertura da Folha sobre o “dossiê”
Sábado de manhã, me deparo com reportagem da Carta Capital intitulada “O dossiê do dossiê do dossiê…”. Pô, eu vinha preparando um post pro blogue chamado “Dossiê do dossiê”. Perdi o título, mas insisto, até porque minha abordagem vai ser um pouco diferente.
Na quinta, 3 de junho, Luiz Nassif publicou texto que esclareceu bastante os bastidores desse suposto dossiê contra Serra supostamente organizado pela campanha adversária supostamente por ordens da própria Dilma. Bem verossimilhante, o artigo diz mais ou menos o seguinte: a acusação parece ter sido uma maneira de o tucano defender-se preventivamente da divulgação de um livro que está sendo escrito pelo repórter Amaury Ribeiro Jr. sobre as privatizações da era FHC (quando mais?). E o pior é como a coisa teria surgido:
“Quando começou a disputa dentro do PSDB, pela indicação do candidato às eleições presidenciais, correram rumores de que Serra havia preparado um dossiê sobre a vida pessoal de seu adversário (no partido) Aécio Neves.
A banda mineira do PSDB resolveu se precaver. E recorreu ao Estado de Minas para que juntasse munição dissuasória contra Serra. O jornal incumbiu, então, seu jornalista Amaury Ribeiro Jr de levantar dados sobre Serra. Durante quase um ano Amaury se dedicou ao trabalho, inclusive com viagens à Europa, atrás de pistas.(…)
Nesse ínterim, cessou a guerra interna no PSDB e Amaury saiu do Estado de Minas e ficou com um vasto material na mão. Passou a trabalhar, então, em um livro, que já tem 14 capítulos, segundo informações que passou a amigos em Brasília.”
Na mesma quinta-feira, o jornalismo da Folha se ateve ao declaracionismo (a nova versão do criacionismo pelo verbo), e isso rendeu a manchete principal: Serra acusa Dilma de fazer dossiê; petista nega. Nesse dia seguiram-se vários quebra-paus, e o PT acabou decidindo processar Serra pela acusação. Gostei da troca de afagos entre o jornalista Ricardo Noblat e o presidente do PT, José Eduardo Dutra no Twitter:
“@BlogdoNoblat - Na versão que começou a circular, tem 110 páginas o dossiê contra Serra elaborado pelos novos aloprados do PT. 2:53 AM Jun 3
@ZéDutra 13 - Você sabe quem elaborou o tal dossie? Então diga. Ficar falando em "novos aloprados do PT" é desonestidade intelectual 9:41 AM Jun 3
@BlogdoNoblat - Eu sei, e o senhor sabe. E não me venha falar em desonestidade intelectual. Há companheiros do senhor que entendem disso melhor.
@ZéDutra 13 - Vc é um jornalista bem informado e deve saber a verdadeira origem desse suposto dossiê. Nâo queira jogá-lo no nosso colo.”
Ontem, sexta, a Folha apenas publicou a notícia sobre a representação do PT e divulgou alguns dados sobre o dossiê, ainda relacionando-o à campanha de Dilma. O jornal ignorou inteiramente o texto de Nassif, que comentou a omissão.
Apenas hoje as edições impressa e online mencionam o repórter Amaury Ribeiro Jr, em matéria com a seguinte manchete: “Jornalista e delegado são pivôs de intriga do dossiê”. Em vez de ligar o início de suas investigações ao PSDB mineiro, a Folha prefere apontar para o Estado de Minas, “próximo politicamente de Aécio”.
Seguem-se minhas questões.
1) Por que a Folha ignorou inteiramente o texto de Luiz Nassif, autor do furo?
Como se sabe, Nassif foi colunista do jornal e, se não me engano, membro do conselhor editorial. Saiu durante o governo Lula, meio que num clima de que teria perdido sua “imparcialidade”. Gostaria de ver o trecho do manual da Folha que diz ser proibido atribuir afirmações a ex-empregados.
Talvez então se tratasse de rigor editorial, da necessidade de primeiro apurar os fatos. Ora, aposto com qualquer um que a Folha de amanhã terá trocentas declarações que por si só viram notícias, de fontes muito mais suspeitas que Nassif.
Para justificar a repercussão de uma afirmação como a de Serra, de que Dilma era a principal responsável pelo tal dossiê, certamente se evocaria um dos pilares éticos da empresa: o direito do leitor à informação. Pouco importa se era apenas jogo de cena do candidato, a Folha seria como aquele seu amigo que nunca te esconderia nada, ou aquela tia que causa frisson em reuniões familiares por sua falta de papas na língua. Ao leitor cabe julgar o mérito da informação. O mesmo vale para invasão de privacidade, violação de sigilos bancário e telefônico, reprodução de buchichos dos corredores da política, etc. É claro, tudo isso é válido em caso de predomínio do interesse público, mas a questão é: quem julga o que deve ser informado e o que deve ser calado, e com que critérios?
Esse caso é até pouco grave, considerando que bem ou mal a Folha hoje deu algumas informações sobre o livro do jornalista, que, a partir de uma matéria da respeitabilíssima Veja, virou o “dossiê” da tal intriga. A essa altura, era inevitável. Mas se trata apenas de um exemplo entre mil.
Não nos enganemos: o direito do leitor à informação é o direito da empresa jornalística de controlar a informação. Com a internet, podem ter se ampliado as fontes, mas muito pouca gente lê blogues de política, seja por desinformação, seja por falta de acesso, seja porque, convenhamos, há coisas muito mais interessantes e bem escritas pra se ler nesta vida.
2) Por que a manchete de hoje enfatiza o papel do jornalista e do delegado?
A pergunta me parece importante porque há ao menos duas outras questões de muito mais valor jornalístico: se é verdade que Aécio e seu grupo político mandaram fazer um dossiê preventivo contra Serra; e o que o livro de Amaury Ribeiro Jr. traz de novo sobre as privatizações (ele não teria escrito tanto apenas pra recontar a história).
Existe ainda a questão do envolvimento do delegado Onézimo de Souza com o episódio da Lunus, que tirou Roseana Sarney do páreo e deixou campo aberto pra candidatura de Serra na campanha de 2002.
A ideia, suspeito, é levar um pouco mais adiante a história de que há novos “aloprados”, ou “neoaloprados”, como já se disse por aí (um rótulo assim, percebam, é extremamente eficaz). Baixada a poeira, tanto faz o que de fato aconteceu ou deixou de acontecer. Até outubro, veremos pulularem remissões a esses “fatos” de que a campanha de Dilma retoma as piores práticas do partido, o que aliás apenas revelaria sua faceta autoritária e o desrespeito geral desses stalinistas pelos princípios democráticos, como a legalidade e a liberdade de imprensa.
Bismarck é, se bem me lembro, o autor da célebre máxima segundo a qual as leis são como as salsichas: é melhor não saber como se fazem. O mesmo, alguém já disse, aplica-se às notícias. Outra afirmação notória sobre a legislação - “Aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei” – também poderia ser dita do jornalismo: seu exercício deve ser mais cuidadoso quando se trata de fuçar a vida dos adversários.