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1 de novembro de 2010

Crônica apressada de almoço em São Paulo

Estamos entre o bairro da Aclimação e o da Liberdade. Sento pra almoçar numa mesa com seis lugares, vazia. Começo a comer seguindo a primeira dieta metódica que tento na vida: 1/4 do prato proteína, outro 1/4 carboidrato, e a metade restante, salada.

Chegam dois homens e uma mulher. Um mais gordinho e de óculos, que obviamente não segue minha dieta (nem minhas inclinações políticas, logo se verá), outro magro, todo penteado. A moça, loira, aquela cara de boa funcionária. Todos nos seus quarenta, devem trabalhar em alguma empresa ou hospital por aqui.

- Vou colocar na mesa do Zé Roberto um mapa da eleição. Da Bahia pra cima, Dilma. Esse é o Brasil que dá certo, ahá -diz o que não preenche a metade do prato com leguminosas.

29 de outubro de 2010

Uma idiotice + uma idiotice + uma idiotice + … = ?

Futorologia, já dizia Celso de Barros, é um exercício fundamental pra qualquer eleitor: no fundo, a gente acaba escolhendo um candidato ao invés do outro, porque criamos um futuro no qual seus feitos serão mais proveitosos, individual ou socialmente, do que os do seu adversário. Mas futurologia é uma coisa, o que este vídeo faz é outra completamente diferente.

7 de setembro de 2010

O elo débil e o súbito pudor

Brincadeira a matéria que deu a manchete da Folha de hoje. Consegue relacionar o contador Antônio Carlos Atella Ferreira – que entrou com o pedido pra conseguir os dados fiscais da filha de Serra com procuração falsa – até com o caso Celso Daniel. A linha de raciocínio é realmente admirável. Pra quem não leu:

Registro em cartório e relações familiares derrubam versão do PT sobre contador

FLÁVIO FERREIRA
SILVIO NAVARRO
DE SÃO PAULO


Registros nos cartórios eleitorais de Mauá e Ribeirão Pires (Grande São Paulo) e relações familiares derrubam a versão do PT de que o contador Antonio Carlos Atella Ferreira, responsável pela violação do sigilo fiscal de Veronica Serra com uma procuração falsa, não tem ligação com o partido.


Os documentos nos cartórios desmentem a versão de que a filiação de Atella não foi efetivada por erro de grafia do nome dele, como a Folha.com revelou ontem. No final de semana, o PT argumentou que a filiação de Atella não havia se consumado pois o registro havia sido feito com a grafia do nome errada -constava "Atelka" e não Atella, segundo o partido.


No entanto o banco de dados da 217ª Zona Eleitoral, em Mauá, indica que Atella é filiado ao PT desde 20 de outubro de 2003. Para a Justiça Eleitoral, nunca houve pedido formal de desfiliação da sigla. O tribunal informou que os partidos atualizam as listas de filiados duas vezes por ano.


Em 10 de abril de 2006, ocorreu mudança do domicílio eleitoral do contador para Ribeirão Pires. Ou seja, para a Justiça, Atella passou a ter filiação partidária em Mauá e domicílio eleitoral em Ribeirão Pires.


Isso levou o sistema eletrônico do TRE paulista, em novembro de 2009, a excluir o nome dele do banco de dados. O sigilo de Veronica, filha do candidato do PSDB à Presidência, José Serra, foi violado dois meses antes.


O fato de o nome de Atella ter sido excluído do banco de dados não significa que ele tenha sido desfiliado. O cartório da 183ª Zona Eleitoral emitiu uma certidão na qual declara que "não há pedido de desfiliação do eleitor acima mencionado (Atella) nos arquivos desta unidade eleitoral".


Atella negou filiação partidária no primeiro momento. Mas, após o TRE-SP confirmar o vínculo, disse que "não se lembra" da filiação. Tão logo a filiação foi divulgada, o presidente do PT, José Eduardo Dutra, se apressou em negar o vínculo dele com a sigla.


FAMÍLIA


A família de Atella é militante histórica e fundadora do diretório do PT de Mauá na década de 80. Neuza Maria Ferreira Jaloretto, sua irmã, é filiada ao PT desde 21 de maio de 1981. A inscrição dela foi feita na 217ª Zona Eleitoral, a mesma em que Atella deu entrada na sua filiação.


Servidora da área da saúde da Prefeitura de Mauá, ela é casada com o oficial de Justiça João Primo Jaloretto, fundador do PT na cidade. Segundo o presidente do PT paulista, Edinho Silva, Jaloretto é militante histórico. O ingresso no PT ocorreu a partir de associações de bairro nos anos 80.


"Ele [João Primo] foi fundador do PT de Mauá, é militante do PT", disse. A família Jaloretto é dona de um imóvel alugado para as atividades políticas do deputado estadual Donisete Braga (PT). O aluguel, no valor de R$ 1.340 mensais, é pago a Durvalino Jaloretto com a verba do gabinete de Braga na Assembleia Legislativa.


Integrante do grupo político do prefeito Oswaldo Dias (PT), Braga é uma das lideranças do partido no ABC. Ele enfrentou processo -arquivado em 2006- por envolvimento no assassinato do prefeito Celso Daniel (PT). A quebra do sigilo telefônico de Braga, que nega envolvimento no crime, revelou que ele estava próximo ao local do cativeiro de Daniel um dia antes da sua morte.

A família de Atella em Mauá é ligada à do prefeito Oswaldo Dias. As filhas de ambos, Letícia Dias e Juliana Jaloretto, estudaram juntas. Hoje, o filho de Dias, Leandro, preside o diretório municipal do partido após seu grupo derrotar o do ex-vice-prefeito Márcio Chaves. A Folha identificou mais dois familiares petistas em Mauá: Maria do Carmo Jaloretto, filiada desde abril de 1981, e Anna Clélia Jaloretto, desde 1988.

Colaborou RANIER BRAGON, de Brasília

Resumindo, é isso: Atella é irmão de Neuza, filiada ao PT e casada com Jaloretto, fundador do partido em Mauá. A família deste (a família do cunhado, nem sequer este mesmo) tem um imóvel alugado pelo deputado estadual Donisete Braga (PT), que foi investigado (não condenado, pois o processo foi arquivado) por envolvimento no caso Celso Daniel.

Alguma dúvida de que a grande maioria dos leitores passará batida pela debilidade da linha de relação e simplesmente engolirá a ideia de que esse procuradorzinho é mais um desses sujos do PT?

E outra coisa: desde quando a imprensa se importou tanto com quebra de sigilo a ponto de se concentrar inteiramente nessa ilegalidade e não nas informações resultantes dela? Quantas vezes os noticiários se valem de informações vazadas irregularmente da polícia, do Ministério Público, do Judiciário para rechear as reportagens no vácuo deixado pela falta de jornalismo investigativo? E as câmeras escondidas?

Quebra de sigilo é grave. A resposta certa é sair quebrando regras mínimas de coerência e até bom senso?

5 de setembro de 2010

Resumo de uma Folha de domingo

Meu resuminho do que li da edição de hoje da Folha:

A gente tá doido pros tucanos tomarem logo de volta o poder da mão desses aparelhistas contumazes. Parece que já era, mas mesmo assim ainda é tempo de criar factoidilmas. Se não der, quem sabe vai pintar um novo PSDB pra nos redimir?

Vejamos passo a passo.

A gente tá doido pros tucanos tomarem logo de volta o poder (…) - Isso pode ser lido no editorial O aviso de Lula, que apela para o argumento furado da necessidade de alternância (vale lembrar, é preciso manter a fama de imparcial):

“Os artifícios retóricos e os argumentos que constavam do artigo de Lula poderiam, quase que integralmente, ser agora esgrimidos contra seu próprio governo.
De fato, poucas vezes na história republicana o fisiologismo foi tão explícito e subordinou-se tanto a máquina pública ao proveito partidário. Por certo, tornaram-se ainda mais caudalosos os rios de dinheiro vertidos na candidatura continuísta -e mais sofisticadas as técnicas de comunicação para ‘ludibriar o eleitorado’.
Utilizou-as Lula, com sua vocação de animador de plateias, para inventar a herdeira que, sem nenhuma experiência eleitoral, poderá ocupar seu trono -ou melhor, a cadeira presidencial. As recorrentes comparações com a história mexicana, que ora voltam à cena, podem ser úteis nos torneios verbais, mas não vão muito além disso. Por mais longos que possam ser os ciclos de grupos políticos no poder, as democracias evoluídas (o que não era o caso do México) acabam sempre por experimentar uma saudável alternância administrativa.”

Então viu, a comparação com o México só não vale porque aqui, inevitavelmente, teremos uma “saudável alternância”.

“(…) da mão desses aparelhistas contumazes” – Quem garante é Cantanhêde, que apresentou a brilhante prova de que os vazamentos estão ligados à campanha de Dilma, e seria um absurdo pensar em outras possibilidades:

“Quem faz o serviço sujo para a campanha petista na internet já tem um culpado: Aécio! É ridículo, como se esses tucanos e esse Aécio é que vivessem fazendo dossiês e usando o aparelho de Estado para violar o sigilo dos outros.”

Entendi. Quem “vive fazendo” é que está fazendo. Tirando a consistência lógica da forma do argumento (X vive fazendo Y; Y aconteceu; logo, X fez Y), a premissa se baseia em parte no factoide do dossiê, que data de junho, e sobre o qual já falei minhas besteiras. Não vejo porque uma das hipóteses em aberto não seja a de que houve participação do PSDB mineiro.

Parece que já era, mas mesmo assim ainda é tempo de criar factoidilmas – Coisa mais furada foi a manchete da edição de Domingo: “Consumidor de luz pagou R$1 bi por falha de Dilma”. Em primeiro lugar, a matéria não estabelece claramente essa relação segundo a qual o consumidor teria pagado, e o valor nem chegou a isso (se R$11 mi não é nada pra Folha, dá pra mim). Em segundo, o próprio texto, claro que sem nenhum destaque, lembra que o tal “erro” é da legislação do governo anterior:

Na época, um dos critérios para a concessão do benefício era o consumo residencial. Os técnicos do tribunal, contudo, concluíram que consumidores que gastavam pouco (até 80 kWh por mês), não eram, necessariamente, pobres -caso de donos de casas de veraneio.
Por outro lado, consumidores de fato pobres ficavam de fora do desconto, pois podiam registrar consumo acima de 80 kWh/mês, devido ao alto número de moradores sob um mesmo teto.
Ou seja, consumidores pobres subsidiaram ricos.
O tribunal propôs, então, a reformulação dos critérios do benefício, criado em abril de 2002, último ano do governo FHC.

Uma questão importante, mas nem atual nem bem aprofundada, justificada apenas porque contradiria a imagem de boa administradora da candidata. E vai parar na manchete da edição de domingo…

Se não der, quem sabe vai pintar um novo PSDB pra nos redimir? – Essa ficou por parte de uma matéria sobre PSDB:

“O PSDB terá que ser reformulado, independentemente do resultado das eleições. Essa é a opinião consensual de fundadores tucanos ouvidos pela Folha e que seguem filiados ao partido 22 anos depois de seu nascimento.
Ao mesmo tempo em que elogiam José Serra como candidato à Presidência, os ouvidos concordam que o partido perdeu a essência, curtida na social-democracia europeia.
Hoje, dos 109 fundadores, apenas Fernando Henrique Cardoso e Pimenta da Veiga, além de Serra, ainda compõem o conselho político nacional do partido.
Existe consenso entre os entrevistados de que a perspectiva de ver seu principal antagonista no cenário político, o PT, chegar a pelo menos 12 anos seguidos no poder é fruto de erros cometidos pelos próprios tucanos.”

O final da citação é brilhante: quer dizer que o único motivo capaz de ter feito os tucanos perderem a presidência foram seus próprios erros? Nunca uma admissão do tipo foi tão pouco humilde. Me lembra trecho da letra de Dom de Iludir, de Caetano “Você sabe explicar / Você sabe entender / Tudo bem / Você está, você é / Você faz, você quer / Você tem”. Se começarem se reformulando assim, estarão seguindo os passos do DEM: vão mudar a roupa, mas não a alma.

16 de agosto de 2010

Post sobre a cegueira

Pois é, os emails trocados entre Felipe e Renato só provam o quanto eu estou correto. Este blog só funciona propriamente quando há um certo estímulo, que desta vez veio de um comentário que Renato fez a partir do editorial da Folha do último sábado, dia 14, e de um textinho de Eliane Cantanhêde de ontem. É, meu caro, parece mesmo que a ala paulista da intelectualidade peessedebista – uma grande parte dos colunistas, editores e donos de jornais em São Paulo, como você bem disse – vai imolar Aécio Neves no altar dos culpados pela derrota eleitoral que começa a se vislumbrar, mas que ainda não está tão certa quanto aqueles mais apressados querem fazer crer. (Renato vai um pouquinho mais longe, levantando a bola de um certo “paulistanismo por poder”, mas aí eu deixo que ele mesmo corte. Fica o convite.)

Eu, de minha parte, me interessei deveras pelo textinho da Cantanhêde (com artigo e tudo), uma pecinha miúda – seis paragrafozinhos com frases curtinhas, sem maiores desenvolvimentos, bem tipicamente jornalístico –, mas cujas implicações, essas sim, me parecem da maior importância.

O assunto: o banho de água fria que a última pesquisa do Datafolha – o instituto que demorou, mas deu o braço a torcer frente à ascensão de Dilma – deu na cúpula do PSDB. Este textinho se movimenta entre um derrotismo, que se pergunta qual será o futuro da oposição, e uma certa perplexidade entre o que fazer para evitar que uma era de trevas se instale definitivamente sobre o Brasil. (É bom que se diga que a ênfase dramática é minha. Nossa colunista é bem mais contida.) E é aí que ele fica interessante.

Cantanhêde escreve:
“A dúvida é se o partido resiste à eternidade de 20 anos na oposição – 8 de Lula, 4 de Dilma e mais 8 de Lula a partir de 2014.”
Engraçado o questionamento, que reforça ao menos dois factóides. Primeiro, que Dilma não passa mesmo de uma marionete de Lula, uma espécie de tampão pseudo-democrático, cuja única função é perpetuar o atual presidente e o petismo no poder sem que haja uma ruptura tão radical quanto a que aconteceu na execrável e autoritária Venezuela de Hugo Chávez. É, como diz Reinaldo Azevedo, o lobo da ditadura numa pele de cordeiro democrática.

O segundo é um desdobramento possível do primeiro – pelo menos nas cabeças neuróticas de uns e mal-intencionadas de outros: os eternos 20 anos do PT à frente da República poderiam significar o esmagamento da oposição, instaurando, assim, por via democrática, um governo de partido único, bem ao gosto dos stalinistas que compõem a esquerda brasileira. Novamente, o fantasma que paira sobre o imaginário de uma parcela da elite nacional é o de que Lula seja nada mais nada menos do que uma versão paz-e-amor do bolivarianismo chavista.

E, para Cantanhêde, não resta dúvida de quem é a culpa deste futuro tão incerto quanto macabro: ela pertence, por um lado, a Aécio, que “não apostou na vitória de Serra, convencido de que manter Minas seria suficiente para alavancar sua candidatura à Presidência na próxima eleição.” Por outro, a culpa de uma possível derrota de um político tão competente quanto Serra para um poste como Dilma só pode ser imputada a um imenso rolo compressor: “Lula, os ministérios, a máquina pública, a ramificação do PMDB e a maior coligação partidária. Não bastasse, vai ter, a partir da terça, o maior tempo na TV e no rádio.”

Felipe é que está certo: tudo não passa de inépcia e presunção da colunista da Folha, para qual, se se confirmarem as pesquisas, tudo o que acontecer de mal ao PSDB – e ao Brasil, logicamente – não é computado como desdobramento da incompetência do partido tanto nos oito anos em que esteve no poder, quanto nos outros tantos em que não soube fazer oposição.

O que Cantanhêde e aqueles que a lêem não conseguem ver é que os possíveis 20 anos do PT à frente do país não significam o fim da oposição e, conseqüentemente, um assalto bolchevique à democracia brasileira. Eles significariam, isso sim, o seu exato oposto: diante de mais uma derrota, a oposição vai ter que se reinventar, corrigir seu discurso, buscar novas lideranças – os Júnior e os Netos que povoam o congresso claramente não dão conta da coisa –, reescrever sua agenda, repensar suas prioridades e, talvez o que seja mais importante, tomar consciência de que precisa ampliar o seu poder de comunicação. Está claro que só os leitores da Folha não são mais capazes de eleger um Presidente da República.

Por que Lula escolheu Dilma?

É, o começo do segundo semestre chega mostrando que, como temia, vai ser difícil atualizar o blog. Pelo menos Rodrigo voltou. De todo jeito, caro 1,2 leitor semanal (contando eu), assine a “newsletter” ou nos siga no twitter, pra não perder seu tempo de vir aqui e não achar nada de novo – como dá pra ver que alguns fazem.

Bem, a Época saiu essa semana com a foto da ficha criminal de Dilma, prometendo revelar informações inconvenientes sobre seu passado terrorista. Não li e não gostei, até porque já deu pra ver mais ou menos do que se trata em mais um post memorável do NPTO. De toda forma, a crescente sensação da vitória do PT e o início de uma maior presença direta da candidata nos meios de comunicação vão plasmando melhor a imagem pública de Dilma.Arte com foto da capa da Época, que apoiadores de Dilma usam no Twitter 

Essa história da ex-terrorista é mais um ato de desespero da oposição, e pode até ter o efeito inverso do esperado. Uma das razões para isso é que contradiz a imagem de uma candidata pura criatura, criada ex nihilo por Lula para sucedê-lo.  Faz algum sentido dizer que uma mulher que decidiu pegar em armas contra a ditadura militar brasileira tem potencial de marionete? É a mesma inconsistência da ideia de uma pessoa que maltrata os inferiores em relação ao papel de pau mandado, como bem notou a própria Dilma na entrevista ao JN. Em parte, é a própria novidade da figura no cenário eleitoral nacional que talvez permita essas oscilações, fora a usual falta de preocupação com a coerência por parte de certos discursos.

A tentativa de mostrar uma falta de valor próprio de Dilma revela, aliás, o quanto o governo Lula fez estragos na oposição. Se consideram que o presidente é capaz de eleger um poste pra sua sucessão, então Lula está bem próximo mesmo do Deus transcendente da Bíblia, que não encontra limites pra seu poder, manipula o jogo, os personagens e as regras. Aquele para o qual a matéria não oferece resistência nenhuma. O todo poderoso mesmo. O cara. Nesse caso, não deveriam criticar a sua pretensa mania de grandeza, pois são os primeiros a inflá-la.

De fato, Lula revela mais uma vez muita capacidade nessa eleição, e não só pelo fenômeno da transferência de voto de um governo espantosamente bem avaliado. Mas não porque teria feito de quem bem quis sua candidata, mas por ter antecipado possibilidades que demonstram seu tino político afiadíssimo. A escolha de Dilma, na verdade, não foi nada arbitrária, e sim inteiramente circunstanciada.

Pra mim o cenário foi mais ou menos assim: com o mensalão, a imagem do PT foi fortemente desgastada; pra completar, como o antigo partido vestal não inventou a roda na hora de fazer besteira, e sim repetiu tramóias em que os demais eram especialistas históricos, isso deu num desgaste ainda maior da classe, tipo “político nenhum presta mesmo”; tendo dado a marca do social ao primeiro governo, era necessário mostrar ao eleitor que havia algo mais a fazer, e isso era tirar o Brasil da estagnação econômica.

Ora, Dilma responde a todo esse contexto. Não tem ligação histórica com o PT, pois era filiada ao PDT. O fato de nunca ter disputado eleição, num cenário em que os profissionais nesse meio são os mais queimados, torna-se até positivo. Quanto menos você for escolado nessa sujeira toda, melhor. O perfil de funcionária técnica só complementa esse aspecto. Pra exorcizar ainda melhor a figura expiatória de José Dirceu, só mesmo se não tivesse lutado contra a ditadura. Por fim, identificada com o desenvolvimentismo e com a cobrança por resultados, era a pessoa certa para comandar a Casa Civil no segundo governo, e o PAC. Além disso, e não menos importante, dá a ideia de um avanço: como diz Marina, primeiro um sociólogo, depois um operário, e agora uma mulher (a diferença pra Dilma nesse sentido Marina garante com a especificação “de origem humilde”).

Lula sabe melhor que ninguém: política jamais pode ser a arte de ajustar a realidade a seus desejos. A escolha de Dilma evidentemente levou em conta sua fidelidade, mas esteve muito bem ancorada, como tem que estar, na situação histórica.

Essa lição, aliás, a oposição parece não ter aprendido. Em artigo na Folha de ontem, Eliana Cantanhêde empurra pra Aécio Neves parte da responsabilidade pela situação de Serra, que agora o Datafolha confirma como desesperadora. Por um lado, é São Paulo não admitindo perder sozinho por sua responsabilidade. Por outro, é arrogância pura da oposição achar que Dilma vai ganhar a eleição por conta desses ou daqueles deslizes, como se tudo dependesse de seus desejos e decisões.

Desculpa aí, mas a realidade histórica manda lembranças.

22 de julho de 2010

Humor em campanha

A gente fez este blogue pra escrever textos mais compridinhos e de análise (ou pelo menos metidos a isso), eu sei. Mas não resisto a postar os dois vídeos seguintes. São amostras de como, na internet, o humor também deve render na campanha.

Alguns talvez não conheçam o contexto. O primeiro se refere a uma reação meio raivosa de Serra no programa Roda Viva a uma pergunta sobre pedágios feita por Heródoto Barbeiro. A isso se seguiu, de acordo com o blog de Luis Nassif, entre outros, uma intervenção do tucano na demissão do jornalista do cargo de apresentador do programa. Depois foi a vez de Gabriel Priolli, que deixou a gerência de jornalismo da TV Cultura logo após uma reportagem também sobre os pedágios.

O outro vídeo  remete ao fato de policiais terem agredido  professores da rede pública estadual  de SP durante a última greve.

19 de julho de 2010

O “trololó” sobre o controle da mídia, de novo

Por mais deprimente que seja, era esperado que a história do medo dos “radicais do PT” aparecesse na campanha para presidente, mas talvez não logo no seu início oficial. Primeiro foi a capa da Veja da semana passada, com um dragão vermelho de cinco cabeças representando “o monstro do radicalismo”. Depois foi o vice Índio chamando Dilma de guerrilheira e ateia. Falta de ideia melhor? Desespero?
 
A Veja, que antes via em Lula o risco de não domar os monstros radicais, agora é só elogios pra habilidade política do presidente, mas não deixa de desconfiar da capacidade de sua pupila para domar a fera. Os argumentos são basicamente dois. Em primeiro lugar, a lambança que a campanha de Dilma fez ao protocolar do TSE, como programa de governo, o programa do partido, que conteria as tais ameaças à democracia. Evidência, claro, de que o discurso moderado seria apenas maquiagem de campanha, enquanto os planos de dominação estariam internamente bem claros para os petistas.
 
Em segundo, a inexperiência política da pupila: puseram um cientista político para prever uma “briga fratricida de consequências imprevisíveis”, caso os resultados econômicos de um possível governo Dilma decepcionem. Fora o argumento de autoridade (e essa posição dificilmente seria consensual na área, imagino), não se apresentam fatos a sustentar essa tempestade no horizonte.
 
O pior é que, estando de férias aqui em Salvador,  vejo em conversas na família que a coisa não deixa de ter suas consequências, e eis que se repetem as falácias todas, inclusive a de uma suposta tendência petista a controlar os meios de comunicação. Passei um olho nas temíveis propostas de comunicação do PT, baseadas nos resultados da Confecom – Conferência Nacional de Comunicação, que aconteceu no ano passado.  Propostas feitas por grupos de trabalhos formados por pessoas de diversas áreas de atuação e diversos estados. Têm valor só de consulta para o governo federal, e não normativo. Mas dão um medo, cruzes!
 
Já em uma das seções introdutórias do documento do Ministério das Comunicações que divulgou as propostas, o leitor da Veja certamente esperaria encontrar a demonização do empresariado da comunicação nacional, pois ali é feito um panorama histórico do setor no país. Em vez disso, encontra-se, por exemplo, uma afirmação como esta, a respeito de Chateubriand:
“Se hoje a telenovela brasileira é um dos produtos mais conhecidos em diferentes continentes, a TV surgiu do improviso e da ousadia empresarial de um homem de negócios que enxergou o futuro”.
Se isso não for o bastante para fazer tremer os meios de comunicação empresariais, que se preparem para esta tirânica declaração de vontade quanto à rede mundial de computadores:
“Manter livre de restrições a circulação de informações pela Internet.”
Os petistas, como se percebe, pretendem transformar o país não na Venezuela Chavista, mas sim na China. Daqui a pouco o pessoal da Google também nos deixa.
 
O que explica tanta preocupação, no fundo, só pode ser a abertura de discussões sobre a concessão pública para a radiodifusão. É de propósito que nunca se dispõem a pôr, de um lado, a imprensa e, de outro, o rádio e a TV. No caso desses últimos, há uma limitação física quanto aos canais possíveis. Pense na TV VHF ou na rádio FM, por exemplo. Em parte por isso, cabe ao Estado dizer com que critérios serão obtidas as concessões para as empresas e de acordo com que objetivos. A questão do sinal digital pode ter mudado um pouco as coisas, especialmente quanto â limitação, mas acredito que o quadro geral seja esse aí.
 
Como a concessão ocorreu na prática no Brasil? Sempre por meio de influência, não política, mas de politicagem. O número de rádios nas mãos de políticos, sempre que divulgado, impressiona. Na Bahia, a retransmissora da Globo é da família de ACM desde que este foi ministro das Comunicações de Sarney. E sabemos bem qual o efeito disso.
É essa a liberdade que se trata de proteger: a de tomar um espaço de interesse público, que deveria seguir critérios estabelecidos pela Constituição, como coisa privada, um negócio feito outro qualquer. Isso não impede, contudo, que os empresários façam valer seus interesses politicamente.
 
O que realmente assusta nas propostas da Confecom, assim, só pode ser a disposição de discutir o problema das concessões. Fala-se ali em fiscalizar o cumprimento das diretrizes constitucionais sobre o tema; da publicidade dos dados relativos às concessões; da obrigatoriedade de os interessados apresentarem, no momento da renovação, documentos comprovando que cumpriram suas obrigações, etc. Enfim, alguém parece lembrar que se trata de um serviço público, e que as empresas devem ser cobradas por isso.
 
Além disso, certamente não agradam muito as propostas de limitação do direito de propriedade relativo aos meios de comunicação: aumento da restrição para propriedade por estrangeiros e, o que deve soar como heresia para um grupo como a Globo, a proibição da propriedade cruzada de meios de comunicação (quando a empresa tem jornal, revista, rádio, TV), sempre para controlar a criação de monopólios. Partidários mais renhidos do capitalismo nada teriam contra esse tipo de proteção, suponho.
Acredito que a questão do Conselho de Jornalismo não incomoda. Só aparece no meio das lamúrias pra fazer nuvem de fumaça e ainda é uma cereja do bolo na cooptação de jornalistas, que surpreendentemente agem como quem não sabe de nada ao repetirem, com convicção de teleprompt, editoriais a favor dos patrões.
 
Mesmo que o plano de governo de Dilma seja uma espécie de Mogwais (aqueles bichinhos fofinhos) prestes a transformarem-se em Gremlins, é de se perguntar de quem mesmo devemos ter medo. A questão não é se a mídia deve ser controlada, mas sim impedir que uns poucos a controlem se lixando pro interesse público.
 
PS - Era pra eu falar de outras coisas, mas este post já tá grande demais. A edição da Veja com o dragão na capa é um primor, e muito inspiradora.
 
- Veja aqui o documento sobre o Confecom (clicando em “saiba mais”, aparece a opção de baixar o arquivo).

10 de julho de 2010

O eleitor não é um Homer

A aprovação do Ficha Limpa teve recepção das mais positivas, variando do elogio protocolar, de flerte com a hipocrisia, até as mais otimistas, quando não ingênuas, comemorações. Mas teve também quem atentasse para uma dimensão em média menos percebida: impedir que alguém se candidate se tiver ficha corrida de corrupção ou algo afim é também duvidar da capacidade de os eleitores decidirem por eles mesmos. Em nome da democracia, desconfia-se do discernimento do povo para exercê-la pelo voto: com o fim de resgatar a credibilidade das eleições, seria então preciso desmoralizar um de seus princípios de funcionamento e validação.

Como resposta, alguém poderia dizer: ora, todo mundo tem capacidade de votar, mas isso só se desenvolve plenamente dentro de algumas condições, entre elas o acesso a informações de qualidade. E, em nosso país, os desequilíbrios nesse campo vêm de todo lado: a começar pela educação, mas também passando pelas diferenças de acesso aos variados veículos jornalísticos.

Quanto a estes, uma pesquisa da Secom da Presidência traz algumas informações interessantes. Para 2/3 dos brasileiros, a TV aberta é o principal meio de comunicação, e 69% a consideram o mais confiável. Com o histórico que temos de distribuição de concessões públicas por politicagem, a altíssima concentração de propriedade na área, a péssima educação pública, como confiar no discernimento do pobre cidadão médio, reduzido a um Homer Simpson com tudo para ser marionete?

Só que, se o pretenso Homer não é nenhum Descartes, também tem seu quinhão de desconfiança: 72% acreditam muito pouco e 7% não acreditam nada do que diz a mídia. É, 80% sabe relativizar bastante o que lê ou vê por aí. Engraçado que até – ou sobretudo? – entre gente sabida impera a imagem do telespectador passivo, o zumbi abestalhado e hipnotizado pelas gigantes midiáticas.

A eleição de 2006 poderia ter sido uma lição para muita gente. A população, aparentemente, se indignou sim com o “mensalão”, tanto que a popularidade de Lula caiu. Mas também terá, quem sabe, percebido as realizações do governo e, talvez mais ainda, deu-se conta de que do outro lado estava não um mensalão, mas quinhentos anos de história de pouco apreço pela coisa pública (um quinhentão). E Lula foi reeleito. Isso a despeito de verdadeiro massacre midiático, em níveis que, nos piores casos, beiravam o golpismo à Venezuela.

Fica a esperança de que, com ou sem Ficha Limpa, e apesar da concentração de propriedade dos meios de comunicação, o eleitor médio tenha muito mais discernimento do que muitas vezes se pensa.

14 de junho de 2010

O que pode decidir as eleições?

Final de semestre, copa do mundo. Falta de tempo pra escrever, e, provavelmente, de disposição pra ler sobre política. Então nada de sair dissertando sobre o quanto pode ser simbólico o lançamento da candidatura de Serra num decadente clube de classe média em Salvador, dizem que sem nenhum negro no palanque. Nem dá pra comentar as últimas da história de um dossiê supostamente feito pela campanha de Dilma contra Serra – o mais concreto dela, por enquanto, é que há um livro do jornalista Amaury Ribeiro Júnior sobre as privatizações da era FHC, a ser lançado depois da copa.

Pra lá disso tudo, o que talvez realmente influencie essa campanha são os fenômenos econômicos que ocorreram durante o governo Lula, como mostra matéria da Folha, que fez boa entrevista com o economista Marcelo Neri, chefe do Centro de Pesquisas Sociais da FGV do Rio. Eis alguns dados:

- queda da desigualdade por sete anos consecutivos, fora um, e retomada da redução em ritmo mais acelerado este ano;

- 10% de redução de pobreza de abril de 2009 a abril de 2010;

- ascensão de 31,9 milhões de brasileiros às classes ABC;

- 20 milhões de pessoas saíram da pobreza em cinco anos;

- a diminuição da pobreza não se deve só ao Bolsa Família, mas também ao aumento do emprego formal, da renda do trabalho e à valorização do salário mínimo (de 1,4 a 2,2 cestas básicas):

“Para Lena Lavinas, especialista no assunto no Instituto de Economia da UFRJ, a pobreza no Brasil cai especialmente por conta da criação de vagas formais no mercado de trabalho.
‘Cerca de 90% dos novos empregos formais nos últimos anos pagam até três salários mínimos (R$ 1.530,00). Isso favorece diretamente os mais vulneráveis’, diz Lena.
Além de criar quase 13 milhões de empregos formais (de 28,7 milhões para 41,5 milhões), o governo Lula patrocinou um aumento real (acima da inflação) de 53,6% para o valor do salário mínimo.”

“Ademir Figueiredo, coordenador do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), afirma que a recuperação do salário mínimo ‘foi o grande ‘programa social’ de Lula’. "Pois ele tem impacto direto sobre o crescimento da renda familiar."

A história do dossiê é vaguíssima, e deve atingir muito mais a candidatura de Serra no segundo semestre. A política externa, ao contrário do que se pensa, tem apoio da opinião pública. Não parece haver condição política de derrubar a candidatura Dilma nos tribunais, seja pela aprovação de Lula, seja pela falta de base social da oposição (no discurso de Serra, isso virou “não tenho esquadrão de militantes pagos com dinheiro público”, ou algo assim), seja porque nesse campo os demo-tucanos tampouco têm ficha limpa.

Muito mais que isso, o bom momento econômico tende a ter um papel importante (veja no NPTO), e essa transformação social é atribuída principalmente ao governo Lula - em minha opinião, de forma justa. Não é lábia nem simbolismo, foram feitos reais, sentidos pela maioria.

Enfim, é a realidade social, estúpido.

8 de junho de 2010

Soninha entre demônios e capetas

 Site do PPS

Li um texto interessante de Soninha Francine, explicando o porquê de seu apoio a José Serra. Um dos pontos principais é que, na sua experiência como vereadora, ela viu ser injusta a transformação do então prefeito no diabo em pessoa, feita pelo seu partido na época, o PT. Um trecho:

“Enfim, eu o detestava. Até ser vereadora e ele, prefeito. E descobrir que o demônio que pintavam não era nada daquilo. Mal humorado, impaciente, carrancudo, ríspido demais às vezes? Sim. Mau caráter? Não.”

Um belo texto, convincente. Utiliza-se da infalível construção em torno do eixo aparência / realidade, mostra a transformação da personagem no curso da narrativa e faz apelo a uma imagem de tipo novo na política, com “papo real”. Por isso, e pela moral que Soninha tem, aliás merecida, o discurso faz efeito, o que se percebe bem neste comentário:

“Rangel disse...

Bacana da parte dela. Acho muito legal alguém abandonar as paixões partidárias e ver a coisa pelo lado prático, ali, no 'meiozão', na realidade dos fatos e registrar pra quem quiser ler.
Parabéns e agora sou seu fã, Soninha.”

Sem dúvida são empobrecedoras essas reduções maniqueístas do outro a demônios. Elas forçam a barra, envolvem simplificações, dependem de baixo nível e, em termos de eficiência de campanha (o que não é o mais importante), acabam até fortalecendo o adversário, pois comprometem a credibilidade de quem as formula.

Dá pra perguntar, porém, se a própria oposição hoje não vive de uma, com o perdão, capetização do petismo. Se o  mensalão não conseguiu colar na imagem de Lula – acima do bem e do mal, segundo declaração recente de Serra – é certo que prejudicou e muito a opinião geral sobre o partido. Vejamos duas faces recentes do discurso sobre esse capetismo:

1) “O PT defendia a ética e fez igual a todo mundo, logo é pior que todos” – estranho raciocínio, que premia a honestidade daqueles que sempre roubaram, mas nunca fingiram fazer diferente (será que não?): o sujeito detesta petistas porque seriam como os outros e então passa a apoiar… os outros. Dessa forma, viu-se o PPS criticar o governo Lula, principalmente sob a bandeira da ética, de mãos dadas com o republicaníssimo DEM (como bem apontou Rodrigo, “o ARENA, perdão, PFL, desculpa, DEM”). Soninha foi sub-prefeita da Lapa na gestão Kassab até deixar o cargo para ser, agora, pré-candidata, provavelmente ao senado. Contra essa DEMonização, ela não falou. Na Bahia, o PPS declarou recentemente, contra o PT do governador Jaques Wagner, apoio ao PMDB de Geddel Vieira Lima.

Quanto à bandeira da ética, vale lembrar que Soninha só mudou de partido e de lado quando isso lhe daria oportunidade de candidatar-se à prefeitura. Marina Silva analogamente só saiu para o PV no momento em que se viabilizou sua candidatura à presidência. Nem de longe é questão agora de demonizá-las, até porque ambas  têm muito a adicionar a nosso contexto político. Mas, em se tratando de política, se devemos relativizar os demônios, não custa humanizar as figuras angelicais.

O PT e o Diabo - Blog Anatolli

2) “O PT é um partido autoritário, de DNA stalinista, usa da democracia só quando isso é de seu interesse imediato” – ora, quem quer que já tenha se aproximado da dinâmica interna do partido sabe da infinidade de tendências  discordantes, do quebra-pau que acontece ali dentro. Confunde-se unidade de ação (é de se perguntar se quem critica por alto a prática pensa em como deve funcionar um partido democrático) com tendências ditatoriais. Veja-se, além disso, como são tomadas as decisões no PSDB, entre três ou quatro grão-tucanos em restaurantes chiques dos Jardins. Mas ali estão nossos grandes democratas, certo?

Ainda que não se deva elogiar nem esconder a corrupção (aliás, quem deu mais liberdade à Polícia Federal e ao Ministério Público?), e que tudo indica ter havido uma forte hegemonia interna de um tendência no partido nos últimos anos, esse tipo de discurso em nada contribui para uma compreensão do que é o PT. É uma charge apressada, fácil e de gosto duvidoso.

Mas o erro mesmo é achar que a oposição ao PSDB e ao DEM dependa desses processos de diabolização. Raciocínios como o de Soninha às vezes dão a entender que só poderíamos ser contra Serra se o tomássemos como o satanás em sua forma vampiresca.

A questão não é simpatizar ou não com Serra pessoalmente, babar ou não com as entrevistas de FHC. O debate não deveria passar por quais são os nossos principais problemas e que grupo político tem condições de resolvê-los? No Brasil de hoje, que interesses cada um representa? Quem contribuiu mais para a redução das desigualdades? Qual deles tem mais compromisso com os mais pobres, com nossa soberania?

Me parece bastante possível posicionar-se a favor de Dilma e contra Serra a partir dessas questões, sem que ele nem de longe precise ser satanizado. E é um pouco demais dizer que as críticas à oposição só podem ser feitas na base do “ou Lula ou Lúcifer”.

7 de junho de 2010

“Dossiê”: entrevista e vontade de esclarecimento

A Folha divulgou hoje entrevista com o jornalista Amaury Ribeiro Júnior. Eis trecho:

“Por que ocorreu a reunião?
Não era só vazamento, começaram a roubar coisas lá dentro. Sabotagem. [...] O Onézimo chegou nessa reunião dizendo que ele tinha condições de destruir isso porque ele havia trabalhado antigamente, e que tinha brigado com o pessoal, da inteligência do Itagiba. [...] Quando o Serra assumiu o Ministério da Saúde, ele montou --com o pretexto de investigar laboratórios-- uma central de espionagem, que era formado por quem? É só você ver quem estava cadastrado. Era um agente do SNI, o "agente Jardim", que até pouco tempo estava no gabinete [de Itagiba na Câmara], um ex-delegado... Isso quem falou foi o próprio Onézimo.

Ele chegou nessa reunião [e disse]: "Pô, vocês estão atrasados, porque essa equipe está trabalhando há dois anos". "Fazendo o quê?" "Ah, eles estão levantando dossiê contra o pessoal, esse povo do Itagiba está levantando 300 dossiês contra pessoas do PMDB, e quem do PMDB não votasse com o PSDB, estão fazendo chantagem, estão chantageando". [...] E disse o seguinte: que tinha sido convidado, inclusive, para integrar esse grupo. "Então pra gente descobrir quem está com vocês, aí, é muito fácil, porque eu já trabalhei lá". Ele contou também que trabalhou --o que facilitaria [seu trabalho]-- que já tinha trabalhado no grupo de inteligência da campanha de Fernando Henrique em 1994.

Ele disse que esse grupo do Itagiba, depois de vasculhar a vida do Aécio Neves e da Dilma e não ter encontrado nada contra, eles estavam desesperados. E disse que tem uns 500 dossiês contra o pessoal do PMDB. Essa é a verdade.”

Nassif sugeriu recentemente que está havendo uma tentativa do jornal de recuperar a credibilidade jornalística. Tomara. Deve fazer parte desse movimento o juízo de que ignorar o que está acontecendo na internet é insustentável.

Já no Estadão, Dora Kramer, hoje, faz que não viu as informações que circulam na rede sobre o livro do repórter. E afirma:

“Se o PT tem informação relevante de interesse público a respeito, diga do que se trata.”

Mas, se o partido processa Serra pela acusação infundada quanto a Dilma ser responsável pelo dossiê, aí:

“Essa ação na Justiça é um gesto vazio e não ajuda a esclarecer coisa alguma.”

Ah, certo, a acusação do candidato tucano não foi “gesto vazio”, e ajudou a esclarecer muita coisa.

5 de junho de 2010

A cobertura da Folha sobre o “dossiê”

Sábado de manhã, me deparo com reportagem da Carta Capital intitulada “O dossiê do dossiê do dossiê…”. Pô, eu vinha preparando um post pro blogue chamado “Dossiê do dossiê”. Perdi o título, mas insisto, até porque minha abordagem vai ser um pouco diferente.

Na quinta, 3 de junho, Luiz Nassif publicou texto que esclareceu bastante os bastidores desse suposto dossiê contra Serra supostamente organizado pela campanha adversária supostamente por ordens da própria Dilma. Bem verossimilhante, o artigo diz mais ou menos o seguinte: a acusação parece ter sido uma maneira de o tucano defender-se preventivamente da divulgação de um livro que está sendo escrito pelo repórter Amaury Ribeiro Jr. sobre as privatizações da era FHC (quando mais?). E o pior é como a coisa teria surgido:

“Quando começou a disputa dentro do PSDB, pela indicação do candidato às eleições presidenciais, correram rumores de que Serra havia preparado um dossiê sobre a vida pessoal de seu adversário (no partido) Aécio Neves.

A banda mineira do PSDB resolveu se precaver. E recorreu ao Estado de Minas para que juntasse munição dissuasória contra Serra. O jornal incumbiu, então, seu jornalista Amaury Ribeiro Jr de levantar dados sobre Serra. Durante quase um ano Amaury se dedicou ao trabalho, inclusive com viagens à Europa, atrás de pistas.(…)

Nesse ínterim, cessou a guerra interna no PSDB e Amaury saiu do Estado de Minas e ficou com um vasto material na mão. Passou a trabalhar, então, em um livro, que já tem 14 capítulos, segundo informações que passou a amigos em Brasília.”

Na mesma quinta-feira, o jornalismo da Folha se ateve ao declaracionismo (a nova versão do criacionismo pelo verbo), e isso rendeu a manchete principal: Serra acusa Dilma de fazer dossiê; petista nega. Nesse dia seguiram-se vários quebra-paus, e o PT acabou decidindo processar Serra pela acusação. Gostei da troca de afagos entre o jornalista Ricardo Noblat e o presidente do PT, José Eduardo Dutra no Twitter:

“@BlogdoNoblat - Na versão que começou a circular, tem 110 páginas o dossiê contra Serra elaborado pelos novos aloprados do PT. 2:53 AM Jun 3

@ZéDutra 13 - Você sabe quem elaborou o tal dossie? Então diga. Ficar falando em "novos aloprados do PT" é desonestidade intelectual 9:41 AM Jun 3

@BlogdoNoblat - Eu sei, e o senhor sabe. E não me venha falar em desonestidade intelectual. Há companheiros do senhor que entendem disso melhor.

@ZéDutra 13 - Vc é um jornalista bem informado e deve saber a verdadeira origem desse suposto dossiê. Nâo queira jogá-lo no nosso colo.”

Ontem, sexta, a Folha apenas publicou a notícia sobre a representação do PT e divulgou alguns dados sobre o dossiê, ainda relacionando-o à campanha de Dilma. O jornal ignorou inteiramente o texto de Nassif, que comentou a omissão.

Apenas hoje as edições impressa e online mencionam o repórter Amaury Ribeiro Jr, em matéria com a seguinte manchete: “Jornalista e delegado são pivôs de intriga do dossiê”. Em vez de ligar o início de suas investigações ao PSDB mineiro, a Folha prefere apontar para o Estado de Minas, “próximo politicamente de Aécio”.

Seguem-se minhas questões.

1) Por que a Folha ignorou inteiramente o texto de Luiz Nassif, autor do furo?

Como se sabe, Nassif foi colunista do jornal e, se não me engano, membro do conselhor editorial. Saiu durante o governo Lula, meio que num clima de que teria perdido sua “imparcialidade”. Gostaria de ver o trecho do manual da Folha que diz ser proibido atribuir afirmações a ex-empregados.

Talvez então se tratasse de rigor editorial, da necessidade de primeiro apurar os fatos. Ora, aposto com qualquer um que a Folha de amanhã terá trocentas declarações que por si só viram notícias, de fontes muito mais suspeitas que Nassif.

Para justificar a repercussão de uma afirmação como a de Serra, de que Dilma era a principal responsável pelo tal dossiê, certamente se evocaria um dos pilares éticos da empresa: o direito do leitor à informação. Pouco importa se era apenas jogo de cena do candidato, a Folha seria como aquele seu amigo que nunca te esconderia nada, ou aquela tia que causa frisson em reuniões familiares por sua falta de papas na língua. Ao leitor cabe julgar o mérito da informação. O mesmo vale para invasão de privacidade, violação de sigilos bancário e telefônico, reprodução de buchichos dos corredores da política, etc. É claro, tudo isso é válido em caso de predomínio do interesse público, mas a questão é: quem julga o que deve ser informado e o que deve ser calado, e com que critérios?

Esse caso é até pouco grave, considerando que bem ou mal a Folha hoje deu algumas informações sobre o livro do jornalista, que, a partir de uma matéria da respeitabilíssima Veja, virou o “dossiê” da tal intriga. A essa altura, era inevitável. Mas se trata apenas de um exemplo entre mil.

Não nos enganemos: o direito do leitor à informação é o direito da empresa jornalística de controlar a informação. Com a internet, podem ter se ampliado as fontes, mas muito pouca gente lê blogues de política, seja por desinformação, seja por falta de acesso, seja porque, convenhamos, há coisas muito mais interessantes e bem escritas pra se ler nesta vida.

2) Por que a manchete de hoje enfatiza o papel do jornalista e do delegado?

A pergunta me parece importante porque há ao menos duas outras questões de muito mais valor jornalístico: se é verdade que Aécio e seu grupo político mandaram fazer um dossiê preventivo contra Serra; e o que o livro de Amaury Ribeiro Jr. traz de novo sobre as privatizações (ele não teria escrito tanto apenas pra recontar a história).

Existe ainda a questão do envolvimento do delegado Onézimo de Souza com o episódio da Lunus, que tirou Roseana Sarney do páreo e deixou campo aberto pra candidatura de Serra na campanha de 2002.

A ideia, suspeito, é levar um pouco mais adiante a história de que há novos “aloprados”, ou “neoaloprados”, como já se disse por aí (um rótulo assim, percebam, é extremamente eficaz). Baixada a poeira, tanto faz o que de fato aconteceu ou deixou de acontecer. Até outubro, veremos pulularem remissões a esses “fatos” de que a campanha de Dilma retoma as piores práticas do partido, o que aliás apenas revelaria sua faceta autoritária e o desrespeito geral desses stalinistas pelos princípios democráticos, como a legalidade e a liberdade de imprensa.

Bismarck é, se bem me lembro, o autor da célebre máxima segundo a qual as leis são como as salsichas: é melhor não saber como se fazem. O mesmo, alguém já disse, aplica-se às notícias. Outra afirmação notória sobre a legislação - “Aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei” – também poderia ser dita do jornalismo: seu exercício deve ser mais cuidadoso quando se trata de fuçar a vida dos adversários.

2 de junho de 2010

Marina Silva a favor da “união civil de bens”

Marina Silva, em seu Twitter:

“Que fique claro: defendo a união civil de bens entre homossexuais”.

E explica na entrevista ao Terra TV reproduzida em seu site:

“É um direito (a união civil de bens) que as pessoas têm. Se as pessoas têm um patrimônio junto, por que não podem usufruir desse patrimônio? Se têm uma união estável, por que não podem ser beneficiários do mesmo plano de saúde?”, indagou Marina para na sequência declarar seu apoio à reivindicação do movimento LGBT.

(…)Marina esclareceu que faz distinção entre união civil e casamento. ‘Entendo casamento como um sacramento’, afirmou. Para ela, um relacionamento homossexual não pode ser enquadrado nessa categoria. A presidenciável afirmou que esse posicionamento se deve a sua profissão de fé. Marina é cristã evangélica.

‘Prefiro que o movimento gay olhe para mim e diga que a Marina nesse aspecto (conceito de casamento) não pensa igual a mim’, declarou para justificar a transparência que considera essencial na abordagem do tema.

Ressaltou que um Estado laico deve assegurar os direitos de todos e para todos. Criticou aqueles que, em período eleitoral, mudam de opinião sobre questões como crença religiosa e aborto de acordo com as pressões de parcelas do eleitorado.”

Nem precisa dizer nada sobre essa distinção entre união de bens e “sacramento”. Dê a César o que é de César, menos o direito de César amar a César, transar com César, casar com César. Será que Caetano ainda vota nela?

Mas o objetivo deste post não é espinafrar a candidatura da evangélica Marina Silva. Seria até injusto reduzi-la a isso. Aliás, ainda bem que Marina não foi ejetada como Ciro Gomes.

Queria só dizer que é admirável a sinceridade quanto a esse posicionamento, embora o fosse mais ainda se não houvesse dois aspectos: 1) com pouca chance de ganhar, fica mais fácil falar a verdade; e 2) não apoiar relacionamentos homossexuais é de longe menos impopular, a não ser infelizmente entre poucos, do que dizer-se a favor do aborto ou admitir-se ateu.

Enquanto isso, Obama, que tanto tem decepcionado na política externa, faz diferença em seu Twitter:

“As we recognize the immeasurable contributions of LGBT Americans during Pride Month, we renew our commitment to equal rights for all.”

31 de maio de 2010

A temível “esquerdização” da política externa

A política externa talvez ganhe destaque nessas eleições. Como o governo Lula nessa área tem posições esquerdistas muito mais marcadas do que na política interna (por exemplo, quanto a Chávez), a oposição tenta fazer disso um trunfo, apostando nos “eu-tenho-medo” da vida. É o que Serra aparentemente faz com o discurso sobre o corpo mole da Bolívia no combate à cocaína, de quebra transformando a discordância política em cruzada anti-drogas.

Isso poderia até funcionar há algum tempo, mas hoje a história parece ser outra. É o que aponta um bom artigo de Marcos Coimbra na Carta Capital desta semana. Eis um trecho:

“Em vez de perceber qualquer problema na ‘esquerdização’ da política externa, a opinião pública vê a atuação do governo e, especialmente, de Lula nas relações internacionais como um de seus maiores trunfos. Nenhum presidente recebeu, antes dele, tanto destaque nesse campo.

Nas pesquisas qualitativas feitas atualmente, o que se encontra é uma sensação de orgulho do cidadão comum pelo que avalia ser um crescente reconhecimento internacional do Brasil, seu governo e sua economia. Predomina a visão de Lula como um presidente que busca e consegue acordos com outros países, favoráveis aos interesses nacionais. Simplesmente não se ouvem ecos do que a grande imprensa publica. Conciliação, bom senso, entendimento, afirmação nacional, é com palavras como essas que as pessoas caracterizam a política externa”.

Primeiro, foi Serrinha paz-e-amor, e Dilma continuou subindo nas pesquisas. Agora enfim aparece um tom mais oposicionista, e parecem escassas as chances de sucesso. Não é à toa que surge a ideia de decidir as eleições nos tribunais.

30 de maio de 2010

Serra: uma charge, dois conselhos

Do sempre imperdível Angeli, na Folha de hoje:

Do twitter de Celso R. de Barros:
“Conselho aos serristas (1): deixem o assunto Bolívia morrer. Não justifiquem, não prolonguem. Mudem de assunto.”
“Conselho aos serristas (2): usem o Reinaldo como o George Constanza de vocês. O que o gut feeling dele sugerir, façam o contrário.”
“Os conselhos são de coração. Mesmo. Sem sacanagem.”

27 de maio de 2010

A propaganda e os democratas programáticos

Acabo de ver o programa “partidário” do DEM, dedicado a divulgar o discurso de lançamento da candidatura de Serra. A campanha eleitoral, ao menos legalmente, ainda não começou. E propagandas assim, pela lei que regulamenta os partidos, deveriam servir para difundir programas partidários e a posição do partido em relação a “temas político-comunitários”, atividades relacionadas ao programa e - isto entrou no ano passado - promover e difundir a participação política feminina. Daí ser vedada “a divulgação de propaganda de candidatos a cargos eletivos e a defesa de interesses pessoais ou de outros partidos”. Por conta da destinação e da proibição, esse uso distorcido  da propaganda, bastante difundido, vive sendo questionado, seja por adversários, seja pelo Ministério Público. Parece que o PT já se movimenta para recorrer à Justiça quanto a esse trailer do que será a campanha de Serra.

Claramente, é questão de cálculo de benefícios: se houver condenação, perdem-se  somente os direitos de transmissão da propaganda partidária, e apenas no… semestre seguinte. Nesses meses pré-eleitorais, quem se preocupa com não poder divulgar questões programáticas, e ainda por cima no semestre que vem?

Recentemente o PT também usou de sua propaganda para promover Dilma. Isso, claro, gerou as mais apaixonadas e insuspeitas defesas de nossas instituições democráticas, que Lula e seu partido insistiriam em desrespeitar. Juntem-se aí as multas aplicadas ao presidente pelo TSE, e pronto: os mais animados já falam até em tirar a candidata do jogo pelos tribunais. Serra era então aquele democrata que teria demorado a entrar na “corrida eleitoral” para não misturar seu papel de governador com o de candidato. Um estadista. Enquanto Lula zombaria dos tribunais e do princípio da igualdade perante a lei, numa imagem construída por meio de factóides e sem análise alguma do que marca a relação de seu governo com o Judiciário e o Ministério Público. Quase eu ia dizer aqui: a partir de agora, será preciso mais cara de pau para continuar esse discurso. Me arrependo: já era necessária toda cara de pau do mundo muito antes disso. Reinaldo Azevedo elogiou o programa do DEM, preocupando-se com sua eficiência apenas, e criticou a “histeria legalista seletiva” do pessoal do PT. Quem quiser que entenda.

Não quero apenas dizer: “Ah, os demo-tucanos falavam do PT, e olha eles aí fazendo a mesma coisa”. Esse tipo de argumento tem algo de deprimente. Se não é para acreditar que existem diferenças entre uns e outros, melhor seria anular o voto – e tentar emigração para a Suécia, Nova Zelândia, sei lá.

Até porque eles não fizeram a mesma coisa, fizeram melhor. Ironicamente, um dos blocos da fala de Serra no programa termina com ele dizendo algo como “A lei deve ser igual para todos! Ninguém está acima da lei no Brasil!”, isso numa propaganda em que se zombava da lei por cálculo político. Que requinte, hein?

Enfim, cai de vez a máscara, e a propaganda que vi hoje apenas mostra como ela era insustentável.

*Pequeno adendo (adicionado em 28/5/10)

Hoje vejo um post do blog de Josias de Souza tratar da propaganda do DEM. Em determinado momento, o colunista da Folha comenta:

“Na sucessão de 2010, segundo jurisprudência criada pelo PT, propaganda partidária tornou-se peça de campanha.”

Falta memória ou é má vontade? Há tempos que os partidos fazem esse uso da propaganda gratuita. Fico só em dois exemplos.

Em 22 de maio de 2007, o TRE de São Paulo cassou um minuto na propaganda partidária do PSDB por promoção pessoal do candidato à presidência Geraldo Alckmin em 2006.

Já o DEM teve, em 27 de setembro de 2007, 18 minutos de sua propaganda cassados pelo mesmo TRE-SP. O motivo? As inserções do partido promoviam a candidatura de Gilberto Kassab às eleições.

10 de maio de 2010

Mais do mesmo

Que a oposição anda meio sem discurso, qualquer pessoa que freqüente a blogosfera já percebeu. A última de Serra é ótima. Em entrevista à rádio CBN, o candidato do PSDB se definiu “de esquerda”, quem sabe seguindo uma deixa de Caetano Veloso, que, numa sacada genial, viu o que ninguém mais foi capaz.

Talvez seja essa a razão porque algumas das críticas que se tem feito a Dilma tenha esse gosto de comida requentada. (E, percebam, não ignoro que comida requentada tem lá o seu sabor muito peculiar. Eu mesmo tenho uma certa predileção por feijoada dormida, mas isso é outro assunto.)

Lê-se hoje, por exemplo, no blog de Josias de Sousa que

“A oposição pergunta: Que feitos produziu a preferida de Lula para justificar a promoção?

A mesma oposição responde: Dilma ainda não deu ao país nenhuma realização palpável.”

Ignoremos o fato de que o respeitável jornalista encarna tanto a voz que pergunta quanto a que responde. É só mais um exemplo do papel que cabe a parte da mídia nessas eleições. Mais interessante, ao menos para o que pretendo agora, é levantar uma outra questão: a da inexperiência política da candidata do PT – ou do presidente Lula, como se repete a torto e a direito por aí.

Ao ler o blog do Josias, hoje pela manhã, me lembrei imediatamente de Patrícia Daniela, uma amiga do segundo grau. Aqueles eram outros tempos, quando ainda me dava ao trabalho de fazer campanha política abertamente. Pois bem, num desses momentos pré-eleitorais, em meados de 2002, perguntei a Paty o porquê de tamanha resistência a votar em Lula, ao que ela me respondeu: não votaria no então candidato do PT simplesmente porque ela nunca o havia visto governar, portanto não tinha como avaliá-lo.

O argumento não deixa de ter sua validade, mas ele tem lá os seus problemas. Primeiro, havia, sim, uma resistência ao que ela via como a empáfia de um metalúrgico sem formação acadêmica de querer governar a nação. Segundo, e isso eu me lembro de ter falado com ela, se experiência política fosse tão determinante assim, talvez devêssemos votar em ACM, cujo currículo eleitoral era bastante consistente.

Oito anos depois, com todos os erros e acertos de seu mandato, Lula deu provas suficientes de que, embora a experiência política seja importante, não é ela o que determina o sucesso ou o fracasso de um governo. Meus conhecimentos dos meandros da política são irrisórios, é verdade, mas me parece que esse culto à figura do presidente é um tanto pernicioso. É melhor eu me fazer mais claro: não estou dizendo que qualquer um pode ser presidente da república. Estou dizendo que, não sendo um ditador, ninguém governa sozinho. (Talvez nem esse o faça, mas pelo menos encarna a figura do faz-tudo.) Tão importante quanto aquele que é o primeiro mandatário da nação, é a equipe que ele convoca para assessorá-lo, para pôr em andamento um programa político sólido. E todos sabemos que foi exatamente nesse ponto em que o governo Lula mais acertou e mais fracassou.

Assim, meu grande medo em relação a um futuro governo Dilma tem pouco a ver com sua experiência, mas com o espaço que o PMDB dos Temers, dos Calheiros e dos Sarneys vai ter ao seu dispor. Do mesmo modo, temo o que seria um governo Serra, que conta com o apoio de um partido tão nefasto como o ARENA, perdão, PFL, desculpa, DEM. Mas isso não parece incomodar ninguém mais.

As críticas requentas, contudo, não param por aí. Uma outra que me tem tirado mais a paciência do que o meio campo do Vitória é a da radicalização do PT. Em fevereiro desse ano, a Veja levantou a bola:

“Lula logrou conter o ímpeto dos radicais, dando-lhes cargos periféricos e gordas verbas em troca de obediência canina. Dilma, se eleita, conseguirá?”

É impressionante. Quem se lembra da capa da mesma revista, publicada em 23 de outubro de 2002?

Veja

Antes era o preço pelo silêncio. Hoje, a inabilidade política de Dilma para controlar a radicalidade do partido. Oito anos de diferença, e a retórica do medo persiste. Uma idéia infundada, que alimenta o discursos de alguns dos setores mais conservadores do país. Me refiro, mais especificamente, a Reinaldo de Azevedo, com muito mais leitores, e a Walter, companheiro de um outro blogue, que não se cansa de nos mostrar as mazelas de um regime esquerdopata. E, aqui, tudo, absolutamente tudo o que o governo faz nada mais é do que uma manifestação de sua tendência stalinista e antidemocrática. Tendência essa que apenas alguns poucos eleitos têm a capacidade de perceber e a obrigação de nos fazer ver.

Pois bem, na ausência de um discurso que lhe seja próprio – em parte porque a pseudoesquerda, nas palavras sempre sábias de Josias de Sousa, lhe roubou uma parte considerável do seu programa político –, a direita brasileira tem requentado algumas das suas críticas a Lula. Espero, sinceramente, que o alcance dessas críticas seja o mesmo de 2002: a mesma lata de lixo de onde elas vieram.